Páginas

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O bastidor dos bastidores




Resultado de imagem para claquete
Participar de um set de um longa nunca esteve nos meus planos, mesmo já feito preparação de elenco para curtas e atuado como atriz e sido premiada em curtas do RS (sem ego algum aqui, apenas comentando). Se fosse trabalhar com a sétima arte seria para escrever ou preparar elenco, talvez, bem talvez, atuar. Como disse esse amor à sétima arte nunca me moveu.
Recentemente fui chamada para fazer a preparação de um grande elenco de SP e RJ para o longa Entre Dois Mundos com direção de Wather Netto, que já havia conhecido há muitos anos em Gramado no Natal Luz e havíamos trabalho juntos em alguns eventos e que também, recentemente transformamos a peça Sonhos em filme. A primeira surpresa foi o diretor insistir para que fosse eu, mesmo com tantas opções no eixo RJ e SP. O segundo desafio foi conciliar toda a vida aqui no Sul, com minha filha mais velha indo para a Dinamarca no mesmo período e a mais nova, ajustando-se com a avó. Dois corações! Mas coragem e organização nunca me faltaram e depois de vários ajustes de datas e pedidos de socorro para amigos que dessem aula para mim como Guigo, Jeber, Paty Viale, Vanessa e Rita, lá fui eu "bem louca" como dizemos aqui no Sul.
Em momento algum pedi e sabia qual era o elenco, até eles chegarem para a preparação e comecei a me deparar com gente muito talentosa, outras inspiradoras que me deixaram com friozinho na barriga. A primeira pergunta interna: "O que posso passar a eles que seja realmente útil?" Fugindo do auto boicote decidi que iria realizar meu trabalho da melhor forma possível sem me preocupar em provar nada para ninguém. Segui a minha velha e fiel intuição.
O começo foi difícil, teve olhadas de cima a baixo, teve perguntas do tipo "Onde é Canela?", "Tu já fez cinema?", "Quantos filmes já fez preparação de elenco?". Eu sorria, dizia a verdade e sempre comentava, vão conhecer meu trabalho na prática.
Preparava o ambiente, me concentrava e começava. Já no primeiro dia uma catarse, avisei o elenco como trabalhava e que antes de preparar o personagem trabalharia eles, pessoa física... e que ninguém podia ir embora com mal estar ou dor física. Que me falassem tudo o que sentiam. Foi tão lindo, tão forte...difícil explicar. Consegui lá o mesmo que consegui em Canela, no Peru, com muita gente ou pouca, consegui chegar onde queria com amor e sensibilidade. Virei o jogo! As mesmas pessoas que me trataram com desdém no início logo vieram trocar ideias, me abraçaram disseram que não estão acostumados a preparadores assim, que sobretudo se preocupem com as finalizações. Na minha primeira ida a São Paulo trabalhei com atores de SP , na segunda do RJ e aí veio outro grande desafio, entre eles um grande ator que admiro muito, Jackson Antunes com experiência em teatro, televisão e cinema. Eu já havia assistido ele em Canela. Para minha surpresa ele é a personificação de tudo que acredito na Arte: pessoa íntegra, humilde, talentosa, elegante, educada, sem clichês, comprometido, alma nobre... de tudo aquilo que sempre tentei passar aos meus alunos. Que grata surpresa encontrar pessoas assim no meio, não intoxicadas pelos dissabores e egos do mundo. Catarses, conversas, aprendizados.
Depois veio a ida ao Pantanal. Duas semanas num sol de 40 graus, queimada, mosquito, cheirando a repelente e protetor solar (não estou reclamando) e gravando nos cenários mais lindos desse Brasil incrível que amo tanto. Novos desafios. Intuição aflorando nas cenas, na equipe (ninguém se preocupa muito em tratar bem a equipe) e eu decidi tratar todos da mesma forma, com as mesmas técnicas.
Chegou o dia da cena do estupro. Uma das cenas mais pesadas do filme. Intuí que devia preparar o ambiente com ervas defumando tudo. Intui entregar a cada um da equipe uma proteção, preparei o elenco, chamei todos para rezar e pedir proteção. No final exigi que todos tomassem chá de camomila e comessem chocolate. Pedi que qualquer sensação de desconforto físico ou energético me fosse falado e ao final, falei com cada um individualmente. Foi lindo! Todos torcendo e emocionados com tudo que aconteceu. Controle de emoção, energia, códigos combinados para coisas que pudesse vir a acontecer. Só conseguia olhar a lua linda do Mato Grosso do Sul e agradecer. Eu entendi! Eu merecia estar ali! Se ainda restava alguma dúvida sobre meu trabalho funcionar ou não, eu recebi a provação final.
Muitas coisas aconteceram no Big Brother dos bastidores, o que pude ajudei, o que não me cabia procurei não me envolver para não desperdiçar energia. Me cuidei. Me controlei. Identifiquei muitas coisas. Lembrei demais de gente talentosa que temos em Canela e que deviam estar no mundo logo, porque são tão bons ou melhores dos que vivem do outro lado da tela. Cresci como gente e artista. Não me deslumbrei, porque não sou dessas. Segui firme! Segui amorosa! Segui profissional.
Para minha surpresa, mal cheguei a Canela e o diretor me pediu para retornar. Ele disse que precisava de mim para as cenas, que gostou muito do meu trabalho. E mais uma vez dois corações: deixar filha pequena, alunos, tudo de novo e voltar. Em menos de um mês quatro idas a SP e duas ao Pantanal. Fora o Peru que tinha sido outra loucura em julho. Mas a vida é isso, você pede o o Universo te retribui! Ele tem sido muito generoso comigo! Voltei. 
Voltei e encontrei uma equipe desmotivada, cansada, longe de casa. Intuí que precisava fazer algo. Escrevi para cada um o que sentia, e presentei cada um com uma arruda da minha casa. Choro. Muitos me falaram que eu era uma bruxa, pois havia passado pouco tempo com eles e sabia tanto de cada um. Respondi: presto atenção nos detalhes. Tantos abraços e carinhos recebidos. Tanto valor e afeto de gente que não me conhece mas foram tão precisos nos comentários. A segunda ida para lá, teve mais tensão, os bastidores estavam literalmente "quentes" do sol e dos ânimos exaltados.
Fiz minha parte. Trabalhei no que pude, e no que não me cabia, silenciei. O que discordava não bati de frente, pois respeitava cada um dali. As fofocas procurei me abster, levando sempre sorriso, boa energia e alegria por onde passei. Era isso que aquelas pessoas precisavam. Por alterações de cronograma, saí de última hora me despedindo da equipe pelo rádio e ouvi um coro de "Lisi! Lisi!"
Uma loucura atrás da outra. Mal cheguei ao Hotel em Campo Grande e as mensagens não paravam de chegar. Foi tão lindo. Tantos elogios, carinho e afeto. Artista precisa de afeto em primeiro lugar, todo o resto vem depois.
Saí feliz e contente. Pisei em Canela estranhamente modificada. Tudo mudou em mim. Minha forma de perceber o mundo, os "meus", meu trabalho. As necessidades de estudo, os lugares que quero ir. Canela sempre estará no meu coração. Tenho muito orgulho de ter começado minha vida artística aqui, mas sinto que é hora de voar. E seguindo o conselho do meu querido Jackson Antunes: "Voa Lisinha, voa longe, voa alto!" Lá vou, sem medo, para longe!
Estou pronta e feliz! Preparada para o mundo que me espera!


Quem não me conhece de verdade pode pensar ao ler "Ih, está se achando agora..." (risos) Meus queridos eu me conheço de verdade, e as opiniões que me importam são da Ísis (filha mais velha que está sempre presente me apoiando com a palavra certa na hora certa) e Helena (filha pequena que me disse que tenho que fazer uma pausa, que está demais essas viagens...kkkkk)
O resto... bom o resto não importa mais! Só eu sei da minha história e de tudo que passei para chegar até aqui, e nem acho que cheguei muito longe, mas onde estou foi um longo caminho de amor a arte, respeito, ética e dor como aliada no processo. Não me julgue, me abrace apenas!
Seguimos firmes e com café de qualidade!


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Sobre cair na isca do anzol da vida



Huanchaco! Quarta vez que passo por lá em sete idas ao Peru de 2010 até aqui. Já voltei do Peru encantada, muito apaixonada, muito triste, muito irritada, mas desta vez voltei em plenitude. Nossa viagem de 14 dias foi inscrível. Muitas coisas aconteceram boas e ruins. As ruins tiramos de letra e aprendemos juntos, choramos juntos e rezamos juntos. As boas nos fortaleceram. Algumas não é possível contar, porque palavras não seriam suficiente para descrever, então guarda-se na memória, outras talvez eu consiga descrever um pouco. Acredito que eu tenha conseguido finalmente "morder a isca" da vida. Explico. Vivi muito sobre limitação do que era passível e fazia sentido. Houve tempos que vivi para mim, somente para o trabalho, para outras pessoas que amei achando que me doar a elas era amor. Houve momentos que gritei soluçando que não queria mais ser eu! O que sempre me salvou foi a escrita e o teatro.
Talvez quem estiver lendo pense: "o que me interessa tua viagem para o Peru?" Nada, bem provável. Mas você pode optar parar de ler e fechar a página. Houveram coisas na minha vida que não tive opções, apenas enfrentamentos. O pior deles, foi tentar me enfrentar todos os dias durante muito tempo. Eu fingia que era feliz, eu fingia que gostava, eu fingia que tudo estava bem, eu fingia e cá para nós, com teatro eu realmente fingia muito bem. Houve tempos  que até eu me deixei enganar por mim, até encarnei frases prontas e feitas. Mas precisei me interpretar profundamente. Me formular de novo. Então acordei no meio dos meus próprios gritos, nos meus fracassos. Me vi sozinha. Eu, as tábuas do palco e a vida me rolando de um lado para o outro. Achei que podia improvisar, mas já não havia mais tempo.
O anzol da vida me fisgou primeiro de uma forma dolorosa, e se o peixe morre pela boca, eu já sentia o sangue grosso escorrendo e pingando da minha. Resisti. Não ia sair assim do meu mar de ideias sem luta. Eu sempre luto até o fim. Me desvencilhei desta primeira armada e me deixei levar para o fundo mar. Lá eu podia chorar, ri, pensar. Mergulhar nas minhas dores que também tinham intensas alegrias. Eu estava quase me apagando, quando decidi sair e respirar mais uma vez. Sem cardume. Um peixe solo no mar teatro. Um peixe vivo no mar morto. Só um peixe em espécie. Nem raro era. Nada extinto.
Voltei. Cicatrizei. Mexi as nadadeiras e fui atrás de novos mares. Aquele já era fatal para mim. Mera suposição. Verdade ou verdades? Pressentimentos. Sinto que sei verdades mas é melhor deixá-las escondidas em mim. Huanchaco foi o meu mar de retorno. A volta do recomeço. Um novo olhar sobre o mesmo lugar, as mesmas ondas, as mesmas paisagens, mas eu...eu não sou mais a mesma. Desta vez a isca da vida me fisgou diferente, sem dor. Eu fui de encontro ao anzol para me libertar de velhos padrões. Me desencontrando, me choquei comigo. Me olhei de cima abaixo satisfeita com as marcas do tempo, com as escolhas, as renúncias, a liberdade que sempre tive de reiniciar. Pensamentos me atravessam e nem ousariam descrevê-los agora. Preciso guardar alguns segredos de mim. O meu nada me deu tudo! 
Ganhei presentes, abraços, cartas, carinho, beijos, elogios, carinho, afeto, gentileza. Por onde passei fiz questão de ser gentil e educada. Sei que não posso mudar o mundo, mas se eu estiver bem os mais próximos também e será mais difícil ser afetada por aquilo que não me pertence.  Eu não tenho mais medo de quase nada. Não tenho medo do fracasso! Me sinto bem! Feliz! Indescritivelmente afetada pelo rumo da minha vida. Está comigo quem devia estar, assim como os que não estão, já cumpriram sua missão. Estive só. Só de mim. Agora estou completa. Transbordando de mim! Não entendeu? Não é para entender, é para sentir. 
Não escrevo para agradar ninguém. Escrevo como exercício libertador e sanador. Apenas isso! Nas minhas obras e peças, procuro exacerbar verdades minhas, ou não, que emocione. Que as pessoas vejam um pouco de si naquilo que faço. Eis a poética e mágica da escrita e do teatro. Identidade!
O dia que parar com isso morro. Talvez morrer não seja lá tão interessante, mas deve ter seu valor, afinal todos entram aqui sabendo disso e vivem como se não soubessem. Estúpida humanidade! Atualizados do seu destino imperfeito.
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me destes era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A vida é ciclo. É giro rápido. Pouco que acaba. Se der tempo, dá a meia volta, refaz, tenta, investe em ti, no teu tempo, nos teus sonhos. Ciranda! Estende a mão, mas recolhe quando achar que já não é mais útil e amado. Seja o que veio ser. Seja dono e senhor das tuas emoções. Seja grande, mas não atropele os outros. Seja um grão de areia no mar de Huanchaco ou de qualquer mar do teu mundo. Mas seja carinhoso com o teu mundo. O teu mar interno. Não se afogue nas ondas dos teus pensamentos mórbidos. Abra a boca, feche os olhos e respire com emoção. Vais sentir a brisa leve da vida de encontro a ti...
Eu, você, teu vizinho, o guarda do trânsito, o ex, a profe, a velhinha do banco, a pessoa que passou agora no táxi...MERECEMOS SER  FELIZES!
Ame-se e pessoas amadas te encontrarão e abrirão os braços contigo para as belezas simples da vida.
Permita-se!


sábado, 20 de abril de 2019

Fecha a tua boca!!!



Eu nunca fui magra! Sempre comia e engordava. Na adolescência geralmente eu sempre estava um pouco acima do peso que a média das minhas amigas. Mas isso não me estressava. Eu era feliz como era, tinha amigos, me divertia,escrevia e fazia teatro. Ouvia piadas, deboches, mas sabia lidar com isso. Fui crescendo e me abandonado aos poucos. Depois da primeira gravidez foi só piorando, não foi nada por acaso, estava muito feliz com minha filha, tinha planejado tudo e tudo ia bem. Eu achava que ia. Comecei a entender minha compulsão por comida. Quanto mais achava que estava bem, mais engordava. Todas as dietas não funcionavam, eu começava mas logo abandonava. Meu pai sempre me xingava e ria da minha cara quando eu furava a dieta e comia: "tu não vai conseguir". Veio a primeira separação. Todo o sofrimento e a comilança junto. Ainda assim não tinha vergonha de mim. Eu sempre tive bom humor e nunca tive medo de enfrentar a vida. Segui! Lembro exatamente das pessoas que estiveram comigo nesses piores momentos, os homens que me olharam e me amaram quando eu sequer me amava. Eu só me amava em cena. No palco eu sempre me achei e me acho linda. Quase fiz bariátrica em 2010, mas quando fui na psicóloga ela me perguntou: "Por que mesmo quer emagrecer?" E eu emudeci, porque antes estávamos falando sobre minha peça em cartaz em POA, o "Dona Gorda" na época encenada pela saudosa Lucia Bendati. Eu não soube responder, e talvez quisesse emagrecer pelos outros, não por mim. Saí de lá pensativa e me questionando seu eu realmente tinha feito de tudo para emagrecer de forma saudável.
Em 2013 busquei uma nutricionista e em um ano, com uma dieta restritiva perdi 28 kilos. Estava bem, estava feliz, não estava me sentido um extraterrestre, mas lá no meu íntimo ainda não tinha feito as pazes comigo, ainda tinha algo errado. Não erá só fechar a boca (como todos diziam) e emagrecer. Me envolvi com outra pessoa, vivi uma linda história e de repente de uma forma sórdida mil mentiras e situações horrorosas voltavam à tona. Adivinhem? Me abandonei e comi como se não houvesse amanhã! Comi de tristeza, de raiva, de rancor... não tinha fome, tinha raiva. Raiva de mim e do mundo. Raiva de ter sido otária, burra, de ter dado amor a quem tripudiou e brincou comigo (óbvio porque eu deixei). A primeira luta foi manter a cabeça serena, terminar de construir a casa, ter uma gravidez saudável (sim engravidei) e seguir. Ainda tinha o teatro! Ainda tinha o palco, eu sempre tenho na verdade. Minha relação com teatro vai muito além do imediatismo. Chorava escondida, comia e escrevia. Aquela dor ainda serviria de alguma coisa no futuro. Passado um tempo, 2018 comecei a buscar várias pequenas ajudas. Porque sentia que precisava lidar com meus monstros internos. Então comecei com várias pequenas ajudas... A Eliane com sua terapia, regressão, floral... depois fiz coaching de emagrecimento com a amiga Ana Lodéa, tivemos vários momentos interessantes e evolutivos. Busquei de novo a mesma nutricionista de 2013, mas algo mudou e aquela dieta não era mais para mim, meu corpo estava diferente, eu estava diferente! Então comecei a fazer funcional com meu amigo Nicolas, incrível a ajuda dele. O legal é que era só eu e ele, e ele soube entender meu tempo, meu jeito e porque não, meu corpo. Sempre com paciência para explicar tudo! Então ouvi falar do programa 5S, duas vezes me comentaram dele e não dei muita importância, movida pela expectativa e do que ouvi procurei e marquei uma consulta com a Carla. Eu começaria logo depois da minha vigem ao Peru em julho, terra do pai da minha filha onde não colocava os pés desde 2014. E lá fui eu, reencontrar fantasmas, me perdoar, juntar cacos, fazer as pazes comigo e fazer uma das apresentações mais incríveis da minha vida. Voltei e uma das primeiras perguntas que respondi a Carla foi, porque tu queres emagrecer? Agora eu não tinha dúvidas, não era para provar nada a ninguém, era por mim, para fazer as pazes comigo e ter uma vida mais saudável, para poder viver mais e feliz.
De setembro de 2018 até agora foram 27 kilos (acho porque honestamente não foquei em kilos), estou quase perto da minha meta, e estou bem. Tranquila. Sem postar cada kilo perdido na net, por sinal , falei para bem poucos que estava num processo de emagrecimento, quando me perguntavam o que eu havia feito, brincava e dizia que estava doente, doente de amor por mim... A Carla virou uma grande amiga, as consultas semanais são um "up" no processo todo, fora todo o acompanhamento. Estou aprendendo a entender meu corpo, meu ritmo, o que ele precisa, quando precisa. Há deslizes sim, mas sempre com foco na retomada. Não quero mais me perder de mim, me abandonar. Minha cabeça é gorda, sempre gostei de comer, mas agora estou melhorando minha relação com a comida. Entendendo quando e porque exagero. Quando posso e não posso. Fiz as pazes comigo. Voltei para o palco e fui verdadeira, falei das minhas dores transmutando-as... "Sigo acreditando no amor" (Fossa Nova), "Fiz as pazes comigo" (A Encalhada), foco no eu (Ator e sua verdade) e tenho buscado ser coerente entre o que digo e faço. Exercício diário! A minha alma, a minha alegria, a minha verdade, a minha essência, nada tem a ver com estar gorda ou magra, tem a ver com meu estado de espírito, tem a ver com quem eu sou de verdade. Comemorei cada etapa. Não me envergonho de nenhuma, cada uma me ajudou a buscar a minha melhor versão (que é uma luta diária) porque todos os dias nos intoxicam não só de comida, mas se sentimentos ruins, invejas. problemas , frustrações e se abster de tudo isso é um ato quase heróico. Em 2019 continuo no 5S e pelas mãos da Mirele, participei do DL (desenvolvimento e liderança) que há um ano ela me falava mas não tinha sentido "o chamado real". Fiz no início de março e percebi quanta coisa ainda tenho para trabalhar em mim, mas também tive a grata surpresa de perceber que avancei em muita coisa, e de certa forma, já fazia DL sem saber. Trabalhei tristezas, raivas, alegrias e dores e percebi que sucesso vai além de estar magra ganhando bem (nunca pensei isso mas conheço várias pessoas que pensam assim próximas a mim). Sucesso é aquilo que te dá prazer, que te deixa feliz, que te conecta com quem tu és de verdade. E adivinhem? Isso é o teatro na minha vida. A Arte! Ajudar pessoas, trabalhar história, pesquisa, autoconhecimento. Foco em quem sou não no que querem que eu seja.
Tudo mudou! Uma revolução começou no meu peito e comecei a me olhar de verdade no espelho. Olhar no fundo do meu olho e ter orgulho da mulher que tenho me tornado. Quantas voltas por cima, meu Deus! Quantas idas e vindas, quantas dores, guerras, lutas e coragem. Sim, eu sou corajosa demais para fazer o que faço e viver como vivo, naquilo que acredito. Sou o que me tornei. Sou o que escolhi ser e quero ser cada dia, ainda melhor. Eu mereço! Minhas filhas merecem o melhor de mim!
Gratidão aos amigos, amores, colegas de profissão, não aqueles que puxam meu saco (tenho pavor), mas aqueles que me estenderam a mão quando ninguém viu, aqueles que não postaram nada em rede social, mas me mandaram palavras amigas na pior hora. Aqueles que me deram ombro, aconchego ou apenas silêncio quando precisei soluçar. Aquele que representa muito isso é o Guga! Anos, mais de 20 anos juntos/separados/juntos, e a relação de cumplicidade ultrapassa qualquer barreira. Ele foi uma das pessoas que esteve comigo em momentos terríveis, mas também nos melhores videokês, festas e criações. Divergimos de muita coisa, mas nos respeitamos e o resto falo sempre a ele pessoalmente. Não é à toa que é o padrinho da minha filha. Enfim, quando achamos que tudo está perdido, algo lindo ocorre e entendemos que tudo que deu errado, foi necessário, para que tudo desse certo.
"Caráter é a soma de todas as nossas conquistas diárias." Sigo, um dia de cada vez, não tenho pressa, não como antes, agora eu entendo que tenho meu tempo e preciso respeitá-lo. Aprendi a dizer não, me recolher, separar o joio do trigo, respeitar o afastamento das pessoas, entender o meu afastamento.
A vida é uma seleção natural, pessoas vão entrar e sair da tua vida, e está tudo certo. As que precisam voltarão, ou estarão de alguma forma sempre contigo. Não tenha medo da solidão, ela é incrivelmente maravilhosa quando você se ama, se respeita e se curte. Não tente provar nada a ninguém, você não precisa. O que as pessoas esperam e cobram de você é problema delas, se você não prometeu, não tenha medo de dizer o que pensa. Mas se prometeu, cumpra! 
Escute sua playlist no carro, aquela que você logo sai cantando e querendo fazer clips, use sua melhor  roupa quando der na telha, saia e se dê presentes, pode ser coisas bobas ou não, se te faz feliz e cabe no teu bolso, está valendo.
Selecione melhor para quem conta seus dramas e traumas, você nunca sabe quando usarão isso contra você. Selecione melhor o que posta nas redes sociais, não passe uma imagem errada de quem é, pense sempre que um grande negócio, aquele que você mais quer será fechado, mas se uma postagem errada cair na rede, já era. Isso vai te fazer pensar muitas vezes antes de sair bombardeando o mundo e comprando brigas que não te levarão a nada. E mais importante: tome café e seja feliz HOJE bebê, agora, Já!
Não tenha medo de deixar florescer sua melhor versão! Você é incrível, exatamente como és! Ame-se e chegarão a ti, pessoas com a mesma frequência. Tudo é energia! Isso é física e já foi comprovado. Acorde!




domingo, 31 de março de 2019

Entre presenças e ausências


Tenho me questionado muito ultimamente sobre o que é estar presente? Física, emocionalmente, estupidamente. Me faço presente, sou presente, quero presença. Dispenso os fingidores da presença, aqueles que estão só por estar. Tem acontecido tanta coisa maravilhosa para o meu crescimento pessoal nos últimos tempos, que até escrever tem ficado de lado. Uma multidão de ideias e surpresas dentro de mim, minha criatividade correndo livre, espontânea, articulada. Sou a mesma, mas presente de outra forma. Presente coerente, sabe! Aquela que não fala, faz! Aquela que quando fala, tem tomado mais cuidado para quem fala e o que fala, até porque não vale a pena gastar energia com quem não quer ouvir. Tenho também celebrado muito a minha presença sozinha, ouvindo minhas músicas de sempre, tomando café, planejando, executando. Saíndo do meu umbigo e ganhando o mundo ao redor da minha casa. Já é uma grande coisa.
A maior reforma foi a casa interior. Sentei com meus fantasmas, tomamos vinho e rimos da época que me assombravam e me paralisavam. Entendemos que o armário ainda está ali, mas agora a porta está aberta e eles não são mais presos pelas minhas chaves de rancor do passado. Não sei nem por onde andam as chaves, troquei o armário de lugar, dei nova roupagem. Existo diferente! Coerente!
Ando com poucos, convivo com muitos. Trabalho com infinitos, me articulo por aí, sem esquecer quem eu sou! Agora o verbo vem em primeira pessoa: EU!
Minha ausência talvez seja comemorada por muitos que ainda insistem em falar mal, invejar, reclamar. Não os culpo, sou bem insuportável quando quero (e não quero). Mas isso já não importa mais. Antes eu queria que sentissem minha ausência, agora eu comemoro se não lembram de mim... sério! É menos cansativo! Explicar isso também é cansativo.
Meu trabalho é minha linha de vida incrivelmente profunda. Ele me representa, eu o represento. Sempre que estou feliz e empolgada o dinheiro nunca é a meta, só consequência. Tenho lidado com pessoas incríveis das mais diferentes idades e níveis econômicos. O respeito é o mesmo com todos. Não me interessa sobrenome, marca de carro ou roupa, se foi a Paris ou a Jaquirana, me interessa a história, o que a pessoa sente, como sente. Isso me atrai. Isso me fascina. Minha relação com a Arte é  a mesma com a vida: presença, ausência.
Me faço presente do meu jeito, que nem sempre é como os outros esperam. Desculpem, não consigo ser como vocês acham que devia. Me culpo também às vezes por não ser tão meiga, amorosa, querida, por não dizer as frases que todos dizem, por não puxar saco, por dizer aquilo que você não gosta. Tenho me ausentado de tudo que me faz mal, do que não gosto,, de quem não quero, de quem não tive, de quem achei que tive. Me ausentei inclusive de mim por um bom tempo e me abandonei por completo. Lá no fundo do poço da minha tristeza e raiva, na luta do meu ego ferido, no meu amor próprio dilacerado, tive que escalar pedra por pedra e quem sempre me deu alívio e oxigênio foi o teatro.
Minha relação com ele é muito, mas muito diferente da maioria dos que fazem teatro: não é somente por profissão, não é por política, nunca tive sonho de ir para TV, não é para sair no jornal, não é para ganhar prêmio, não é para ser convidada para eventos badalados e sair com cara de paisagem na foto, não é por hobby, não é por fuga, não é por status. É por amor profundo de alma, é para usar a dor como aliada no processo de criação, foi a ferramenta que eu encontrei, o meu "estepe" sabe. A peça mágica que tudo resolve.
Não faço cerimônia para dizer nada do que sinto, também não gosto de gente que dá voltas para dizer o que realmente quer. Atitude e respeito. Simples e cada vez mais raro. Fiz as pazes com meu passado, aproveitando o presente e não levando tão a sério o futuro. Ele virá de qualquer forma se eu cultivar o agora.
Meu coração está recuperado. Inteiro, feliz e divertido como sempre foi. Eu sempre fui uma pessoa alegre e havia me esquecido disso. Trabalho feito uma louca, tempo corrido, mas sou feliz assim. Me deixem! To bem, juro! Voltei a respirar, olhar para o lado despretensiosamente e ver que ainda existem pessoas super interessantes. Pessoas que sabem se fazer presentes. Dissolvam-se as presentes que são ausentes. Se é que me entendem...
Se eu morresse hoje, iria feliz, mas negociaria certo para voltar porque ainda tenho muita coisa a fazer aqui, muitos sonhos a realizar, muitos beijos a dar (dale, dale, dale). Ou, se fosse impossível, certo que montaria um teatro no céu (tenho a pretensão de que irei para lá Senhor), montaria um teatro das almas presentes, só iria entrar quem se comprometesse a ficar PRESENTE! Nada de sair por aí assombrando os outros. Ninguém merece alma penada, por favor!
Sem bobagem, caso alguém me leia (sempre escrevo para mim em primeiro lugar) esse é o conselho que daria: SEJA ABSOLUTAMENTE PRESENTE, naquilo que você se comprometeu a ser: com seus filhos, marido, amores e amantes, trabalho, faculdade, grupo de estudos, aulas... não fique entre ausência e presença. Não faça nada pela metade, eu disse NADA! Seja absolutamente inteiro em tudo na sua vida. Porque você só terá de retorno o inteiro, se for inteiramente verdadeiro.
Não perca tempo com bobagens, com gente que não agrega, com abraços mornos, com beijos sem tesão, com cama suada (suor também esfria). Vista sua melhor versão, coloca teu melhor perfume, sorria para você mesmo, escute sua música preferida e saia olhando a vida e pode ter certeza, ela vai retribuir e te dizer: UAU! Finalmente você voltou, senti a tua presença!!!
Bom final de domingo!
Lindo início de segunda!

Estou pronta e presente!





sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Ator e sua Verdade - A Dor como aliada no processo de criação


Sérgio Azevedo Fotos

Janeiro de 2019. Segunda semana. Lá vamos nós em mais um mergulho no Ator e Sua Verdade este ano com o tema "A Dor como aliada no processo criativo" tema também do meu artigo acadêmico da pós graduação em Artes Cênicas. Treze pessoas. D'arte Espaço Multicultural. A noite. Praticamente sozinhos do espaço.
Tudo eu planejo, organizo, me recolho, estudo e sempre na última hora mudo tudo e vou pela intuição, mas claro,sempre tendo um ponto inicial, um norte com referencial teórico. A arte, assim como a vida, é entendida através de experiências, não de explicações. "Como artistas de teatro, não podemos criar uma experiência para uma plateia; nosso trabalho é estabelecer circunstâncias para que uma experiência possa ocorrer." (Anne Bogart)
Acredito que as experiências só ocorrem quando colocamos verdade e mergulhamos nelas a fundo. Uma certa desorientação, um certo desconforto, um certo "não saber o que fazer para não se armar" são sempre imprescindíveis para a criação. A dor é fundamental nesse processo, pois se você souber trabalhar com ela a seu favor, como sua aliada você pode ter resultados incríveis a partir de coisas muito simples. É como quando nos apaixonamos por alguém e não sabemos nada do outro, temos de abandonar nossos hábitos diários porque estamos pisando em um "novo terreno" que muitas vezes nos desorienta. Para sermos tocados, temos de estar dispostos a não saber qual será a sensação do toque. Tudo tem que ser novo e como se fosse a primeira vez.
As treze pessoas especiais que recebi, de lugares diferentes, histórias diferentes, profissões diferentes estavam muito abertas a saírem da sua zona de conforto e se jogarem de corpo alma nessa nova experiencia. Sem racionalizar muito, só sentir. SENTIR sempre foi a palavra chave desse curso, e atualmente dos meus trabalhos como atriz, professora, dramaturga e preparadora de elenco... A única proibição é falsidade e fingimento. Mesmo em cena! Meu personagem precisa ter verdade, não posso "fingir" que ele é isso ou aquilo, ele tem de ser! Se eu não sentir nada, minha dança, minha cena, minha música não fará ninguém sentir.
Experenciamos exercícios diversos que foram do xamanismo até bioenergética. Cada dia uma sensação, uma descoberta, uma leitura, uma roda de chá para avaliarmos o trabalho do dia e nossos atravessamentos, uma mensagem lida, uma carta escrita a alguém que nos tocou/emocionou no dia. Em uma palavra o dia foi...
Você não precisa aba

 A tua dor não pode ser maior que tua vontade de transmutá-la.
Tudo depende de ti...




O Universo é muito mágico e responde a tudo, é só estar em sincronia. Eu aprendi tanto com essas pessoas maravilhosas que se deixaram tocar e me tocaram, emocionaram, sentiram, fruíram... eu fui eles, eles foram eu! Compartilho pedaços de depoimentos de alguns dos participantes:
"Atravessei portas, deixei gaiolas para trás, sou um ser humano renovado por esta experiência. Ainda tremo, mas descobri que não é um tremor de medo, mas de ebulição interna. Agora preciso aperfeiçoar meu jorro, ao invés de engoli-lo ou cuspir lavas incandescentes, liberar emoções e palavras que me confortem, me ajudem a despressurizar e me façam aprender a envelhecer seguindo o caminho da minha vida." (João Ferraz/ engenheiro)

"Quando decidi fazer o intensivo Ator e sua verdade fiquei com medo, medo de não consegui me expor, de ficar com vergonha de mostrar a verdadeira catina. No decorrer da semana tu vai sentindo tanta coisa e descobrindo tanta coisa que parece que o intensivo foi de meses e não só cinco dias. Quem tem coragem de se entregar de verdade sai diferente de quando entrou. A cada dia tu vai conhecendo pessoas incríveis, abertas, com a mesma entrega e vai aprendendo com as palavras ditas, os conselhos, as observações, os abraços, as risadas, as histórias, os choros, as trocas de energia. Eu saio do Ator e sua verdade mais confiante, tranquila, leve, segura, e feliz. " (Catina Basei/atriz)

"O Que foi esse curso para mim? Foi transcendental, um reencontro com a minha essência, sendo cada colega um canal de conexão comigo mesma. Para mim ficou claro que o que realmente importa é entregar -se para o que é realmente importante. A conexão humana não pode se perder, pois é aí que está a vida, a moral disso tudo. O teatro que eu acredito é esse - a entrega por inteiro, estar no desconforto, estar conectada. 
Os momentos mais marcantes do curso: conexão com os colegas via olhar, abraço e colo e a dinâmica de deixar manifestar o animal de poder. Nesta última todos os conceitos desapareceram e todas as sensações estavam à  flor da pele. Saio do curso confiante e determinada para viver o que eu sinto e acredito." (Natacha Siqueira/ fonoaudióloga)

"Me considero escolado nessas dinâmicas e exercícios que mechem com emoção, com raiva, carinho... estudo sobre o assunto, e tinha medo de deixar os meus filtros atrapalharem o meu aproveitamento, mas fiquei realmente surpreso com a tua condução..., falo, sem "rasgação", que tu tens um talento especial, uma sensibilidade enorme para desnudar a alma das pessoas. Sabe muito bem aonde "cutucar", sabe como deixar as pessoas confortáveis no seu desconforto. Incrível como a história de cada um nos revela grandes aprendizados de nós mesmos, como a dor do outro é nossa também, e não só por empatia ou por nos  compadecermos, mas porque realmente no fundo, nossos medos e demônios são muito parecidos." (Juliano Bolfe/músico e compositor)

"Ator e sua verdade é muito mais do que um curso de teatro, é uma vivência libertadora, onde é proporcionada uma intensa reciclagem energética com ativação do poder pessoal. Isto é possível graças à perfeita condução por Lisi Berti, que, com maestria, provoca um desnudamento de almas. A experiência é transformadora m, positivamente, pois, proporciona o reconhecimento das próprias dificuldades e o conhecimento da própria capacidade em superá-las. Aprende-se a retirar as máscaras que impedem a expressão da verdade pessoal, utilizando a dor como ferramenta para galgar os degraus da evolução." (Aline Collet/ defensora pública)

"Eu já tinha feito o curso o Ator e a sua verdade em outra edição, porém naquele momento eu não estava tão aberta para trabalhar alguns sentimentos. ou talvez, nem os tivesse naquele momento para trabalhar.
Nessa edição do curso a proposta era trabalhar a Dor como aliada, resolvi fazer por dois motivos.
1. eu estava passando por um momento de muita dor, lidando com tristeza, meio perdida e com alguns lutos.
2. eu acredito muito em usar a dor como aliada, acredito que a dor pode nos colocar em uma nova perspectiva e ativar o foco e a criatividade.
o curso vai muito além da questão da atuação, ele na verdade é uma base criadora para uma atuação mais humana e com mais verdade, que vai conseguir chegar no público de forma mais verdadeira e intensa, pois busca no fundo dos nossos sentimentos e alma a nossa essência.
Trabalhar com nossos medos, sonhos, alegrias e tristezas, traz à tona muita verdade e quando trabalhamos isso, saímos não só como atores, diretores, dramaturgos melhores, mas também como pessoas melhores." (Paula Basei/ design e outras coisas mais)

Como disse, não tem foto, depoimento, escritos que possam mensurar o que vivemos nestes cinco dias de entrega. Para completar fui convidada pela psicanalista Sabrina Sironi a participar do encontro Escutarte onde falamos do meu trabalho e da dor como aliada no processo de criação sob uma visão da psicanálise. No dia 14 de janeiro no Aroma Literário, fui privilegiada de ter casa cheia, de pessoas desconhecidas, ex alunos de teatro, alunos de outros intensivos e os que tinham feito o último. Um misto de emoção, entrega, alegria. Eu ali, falando das dores passadas, do processo de criação de "Cartas de Além Mar", da viagem transformadora ao Peru, ao som de Chavela Vargas. Abraços, encontros, trocas de ideias e claro, de emoções e intensidades. Comecei meu ano (que será um dos melhores dos últimos tempos) da melhor forma possível, ressignificando tudo.
Seguimos!








sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O que desejo para 2019, 2020, 2030....


Então 2019 está aí batendo na porta, já está tudo praticamente certo para recebê-lo... 2018 despedindo-se... ano de extremismos, ano de resolver bagunças, colocar a mão no lodo interno, ano das máscaras caírem e se espatifarem e você redescobrir pessoas que estavam ao seu lado que você achava "x" e descobriu que eram "y". Ano das limpezas, ano da coragem em pleno teste, ano das dificuldades, ano da sobrevivência, da autoavaliação, das solidões necessárias...
Meu 2019 começou em julho de 2018, quando participei de um Festival no Peru com "Cartas de Além Mar" e tive que enfrentar todos os meus fantasmas do passado, juntar pedaços que havia deixado por lá e fazer uma das apresentações mais lindas da minha vida. Voltei mudada, inteira, curada, reconstruída. Senti na pele a troca de pele, que dói tanto, porque nos apegamos a bobagens. Fiz as pazes com o passado, cortei o cordão umbilical.Me aproximei de pessoas, finalmente disse NÃO para coisas que não queria mais, me afastei de outras que não tinham nada a ver comigo, mas me deixei levar, estou fazendo as pazes com meu corpo que estava abandonado.
2018 para mim foi um ano do quase... quase desisti, quase parei, quase perdi a elegância, quase briguei, quase adoeci, quase... mas pela graça dos deuses surtados da amabilidade teatral do cu do mundo (sim eu gosto de falar cu) eu me contive. Estrategicamente parei, pensei, guardei muitas opiniões para mim e só falei para quem realmente pediu e queria ouvir de verdade. Entendi muito. Me aproximei mais da família (ainda falta um longo percurso). No meio disso criei, inventei como se não houvesse amanhã. Era mais que sobreviver, era necessário. Minha alma sofria em silêncio, e na Arte ela podia se libertar. Sempre foi assim regado a chuva e claro, muito café, minha melhor companhia.
Então não estou esperando o ano terminar, para mim 2019 já começou e será o ano mais importante da minha vida! O ano da colheita e eu sei bem o que  plantei nos últimos anos. Na verdade só eu sei... comecei a me estressar menos, me movimentar mais pelo MEU trabalho, afinal movimento gera movimento! As piadinhas que ouvi de colegas próximos ficaram para trás, cada um dá o que tem, e cada um sabe de si. Só me afeto se abrir brechas... não farei mais isso. 
Houveram trabalhos que não andaram como eu queria e eu tentei entender isso sem sofrer, outros que eu nem imaginava e seguiram de uma forma leve e divertida. Houveram contratações fantásticas de coisas que nunca imaginava que seria capaz, conheci muita gente bacana, recebi muitos elogios do meu trabalho de lugares distantes, Canela já não é mais meu lugar e e 2018 isso ficou muito claro pra mim. É o lugar que vou morar (por enquanto). O Estúdio de Pesquisa Teatral sou eu e eu sou o Estúdio. Ele estará onde eu estiver. Por aqui já fiz o que devia e precisava e depois não tenho mais paciência para discursos inflados (de várias pessoas, inclusive de amigos) de "apoio a cultura local", escuto isso há tantos anos que me cansei. No frigir dos ovos sabemos que é sempre valorizado e bem pago o de fora. O daqui espera, o daqui é coadjuvante, o daqui a gente negocia. Não é crítica, é desabado de quem tem uma Cia de teatro em Canela há 24 anos. Muito já se passou, então não me tirem para idiota, não me venham com tapinha nas costas, eu VIVO Arte e pago minhas contas com ela, não quero apenas posar para foto. Chega de palhaçada! E como diria minha vó: "os incomodados que se retirem"... saíndo de cena então! Na nossa cidade as pessoas sempre olham para seu umbigo e sempre irão falar mal de quem faz... é incrível, se usassem toda a energia que desprendem para falar uns dos outros, estaríamos de volta ao topo. Todas as reuniões que participei neste ano com "tribos" diferentes, alguém sempre falou de alguém ou criticou outrém. Para quê? O que isso adianta? Na prática não resolve nada. Mas ainda acredito na Arte, na MINHA Arte. Meu foco é em mim agora! Nas minhas coisas! Seguirei assim!
O que desejo para 2019,2020, 2030 é atitude. Menos papo e mais ações coerentes e responsáveis, mais olho no olho, menos preconceito, mais amor, mais café, mais frio, mais respeito, mais caráter, mais verdade. Pessoas de verdade! Viagens, trabalhos maravilhosos e bem pagos, valorização e ...
(as reticências são coisas obscenas que também desejo e irão se realizar rá!).
Aproveito para agradecer a todas as pessoas que de uma forma ou de outra estiveram comigo este ano. Seja em pensamento, dividindo palco, apoiando meu trabalho, com msgs carinhosas que sempre recebi, com abraços, ou até afastamentos. Meu respeito profundo a quem escolheu ficar longe de mim porque nosso ciclo encerrou. Aceitar o fim também é importante!
Eu recomeço e me regenero sempre! Sinto e estrategicamente me afasto. Não brigo mais! Só torço para que tudo dê certo e se não der não vou dizer "eu avisei" e sim "vai lá, fracassa de novo, tenta de novo, fracassa melhor" (Beckett).
Meus amores, não me odeiem, eu sempre falo e escrevo o que penso, olho no olho. Não tem indireta nenhuma aqui a ninguém, todas as coisas que me incomodaram este ano eu procurei falar e resolver. Não sou dessas... Sou bem simples na verdade, as pessoas que adoram me rotular porque não me conhecem.
Que venha 2019, o ano vira, as "peleas" continuam, a gente amadurece, cai, levanta e a única certeza é que vamos sair desse mundo sozinhos como entramos. Então que nossa passagem seja produtiva, suave, inspiradora.
Feliz 2019 para TODO MUNDO (de verdade!).
Evoé!








sábado, 17 de novembro de 2018

Eu nasci... há 42 anos atrás...


Há 42 anos atrás nascia de cesariana uma menina no Hospital de Caridade de Canela, às 2h30 da manhã chamada Lisiane Silveira Berti. Filha de Armindo Berti e Eli Silveira Berti. A primeira da prole de três filhos que viriam mais tarde. Escorpiana. Infância feliz. Na terceira série morou com a avó paterna porque os pais se transferiram para o interior, os via somente no final de semana. Ano difícil e marcado esse. Mas também daí vem a amizade com a menina Helena, mais velha que ela, fruto de inúmeras histórias de feitiços e dois tombos de cavalo (nunca mais curti a tentativa de andar neles). Foi crescendo. Na sua rua da cidade, já de volta com os pais teve amigos maravilhosos os quais tem contato até hoje. Turma do volêi, da fuga das ovelhas, de andar de bici, de esconde esconde e patins. Adolescência interessante. Ensino Médio com a melhor turma que podia se ter, também em contato até hoje com a grande maioria. Vieram os primeiros amores, as primeiras desilusões, as primeiras peças escritas, as primeiras subidas em cena, o primeiro monólogo, as primeiras viagens e festas teatrais. Os primeiros empregos não ligados ao teatro. Formatura, trabalho, atalhos para a suposta chegada em um objetivo. Tempo relógio. Tic tac. Aos 25 primeira filha, amada, aguardada, esperada fruto de uma linda história. Aos 39 a segunda filha, amada, aguardada, esperada, fruto de outro história linda que não acabou tão linda, mas já foi superada.
Pessoas passaram, outras ficaram, algumas se perderam no meio do caminho, eu mesma me perdi diversas vezes. Lágrimas...risadas...recomeços. Acertos, mais acertos que erros. (eu acho!)
A gente não vem com manual de instruções e já é complicado compreender os outros, imagina olhar para dentro de si. Várias vezes precisei consertos, trocar pilhas, ir para a garantia. Várias vezes pifei. Fiquei no cantinho, "parada" acumulando pó. Houveram também grandes momentos onde minha energia foi carregada por horas e funcionei para agradar a outros. Cumpri esse papel com excelência. Foi assim com amores, amigos, trabalho, família... até que fui me dando conta lá perto dos 40 que eu não precisava de nada disso. É, perto dos 40 mesmo! Alguns velhos amigos voltaram, os amores/horrores me ensinaram preciosas lições e o teatro, meu velho escudeiro e companheiro de guerra estava ali, na trincheira. Do ladinho, segurando minha mão.
Quarenta e dois completados com sucesso. Ainda tem "N" coisas a fazer, a melhorar (em mim), desisti de querer melhorar os outros, entendi que se eu estou bem naturalmente meu entorno estará. Também digo NÃO com mais ênfase, falo o que penso (com mais cuidado), me afasto de quem me faz mal e sumo do mapa literalmente, mas não sou do tipo que deseja mal...
Meu corpo também já não é mais o mesmo. Sanfonei. Engordei e emagreci como a roda gigante...agora decidi cuidar da minha saúde (sobretudo emocional) e o resto começou a melhorar. Saí de vários empregos fixos para viver meu sonho, tem sido bem complicado, e várias vezes pensei em mandar tudo a merda, pegar um currículo e largar por aí. Nunca tive medo do trabalho. Mas também não posso sufocar em algo que não tem nada a ver comigo. 
O Universo tem sido generoso comigo, mesmo eu sendo chatinha e reclamando para  caramba (sim falo sozinha com o Universo particular tomando café). As pessoas certas tem aparecido, as parcerias, os trabalhos, os contratos...na verdade está tudo certo como está!
As eleições mexeram demais comigo. RE-descobri pessoas de uma forma peculiar. Me espantei com outras e seus posicionamentos agressivos. Sofri. Chorei. Me recolhi. Busquei entender e sempre torcerei para meu país andar. Mas não me vejo mais em Canela. Não me vejo mais na minha casa. Me sentindo meio andarilha do mundo. Esperando o próximo passo sem pressa, para o novo que virá, e que já está quase batendo a minha porta. Eu sinto! Sei que tudo isso será por uma boa causa. Eu acredito. E o que tiver de ser, sei que sou capaz. Eu consigo!
As dores passadas ficaram em algum lugar do Peru, em julho. Lá a ferida abriu, sangrou, limpou e secou. Há uma cicatriz. Mas ela não é feia. Ela me lembra da beleza de ser quem sou e ser forte e corajosa. Sigo! Sempre! Choro e sigo! Rio e sigo! Atuo e sigo! Escrevo e sigo! Tomo café e sigo! Acolhendo o inverno sigo! Não peço para ninguém ficar ao meu lado. Peço sempre verdade. Honestidade. Só isso me interessa agora. 
Recebi os melhores presentes que podia receber de aniversário: flor de um aluno pequeno de teatro que se despediu chorando, uma almofadinha de coração de uma senhora de 80 anos que ajudei a falar em público e me deu uma aula sobre amor e família, um cactus da minha ex sogra amigona de outras vidas, café dos colegas de teatro e outras "cositaas mas", videokê com os seres mais amados da minha vida que optaram estar comigo num dos espaços que mais criei este ano. Eu não quero grandes coisas, mas os meus sonhos e os pequenos desejos estão todos em andamento sejam no papel ou na minha cabeça. Alguns já em prática. Tudo aquilo que eu quero está se materializando. Faltam ainda alguns pequenos ajustes... Meu coração está tranquilo, minha cabeça alinhada com meu propósito. Não sou nem mais nem menos que ninguém. Sou eu, apenas! Não finjo para agradar, sou reta e objetiva (porém tentando equalizar o tom e a língua para não magoar) afinal, não precisa ser assim.
Sou merecedora! Sou mulher, atriz, mãe, amiga. E as coisas vão dar certo, elas precisam dar certo porque eu sempre acredito!
Eu, melhor do que ninguém, sei do que sou capaz!
Seguimos rumo aos 43...