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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O primeiro rivotril a gente nunca esquece...


Saio cedo para uma hora marcada pela manhã, feliz cantando e dirigindo ao som da minha música preferida "Sittin'on The Dock of the Bay" (Otis Redding) que até Helena já quer cantar nos seus quase dois anos de vida; chego 15 minutos antes do previsto no local, achando que estava arrasando e quando aperto o interfone descubro que minha hora era a tarde. "Putz". Vou para o café ao lado e no caminho converso online com um amigo que decide me encontrar no café. Papo vem, papo vai, falamos de Arte, cordel, utopias, projetos... (tão bom falar com gente inteligente e que não usa o pronome pessoal "EU" em todas as suas frases). Ele sai, chega outra amiga, cantora! Falamos sobre as escolhas, intuições, dificuldades de falar o que fica engasgado. Ao lado um casal querido, amigo, vou até eles, abraço e cumprimento. Volto para casa quase meio dia. O planejado não aconteceu, mas o universo conspirou para outra coisa... Chego em casa e me deparo com a cartela de rivotril que ganhei (não vem ao acaso dizer de quem) pois comentava da minha absurda ansiedade...
Nunca fui fã destes remédios...e sim, tomei um numa noite, e não aconteceu nada. Acho que todo o café do meu corpo foi mais forte (graças a Deus!). Pensei se queria vegetar ou reagir? Se queria ficar inerte diariamente aceitando tudo " de boa" ou viver minha vida "mode on louca". Um ansiolítico, ficamos melhor para os outros e cada vez pior com nós mesmos..."JAMÉ"!!!
Botei a cartela fora! Toda ela e dei risada! Acham que me pegam né? Não! Acham que me rendo por tão pouco? Nunca! Acham mesmo que quero levar uma vida de "abostada" com olho parado, numa calma fingida apática ao meu entorno? Não sou dessas baby...não sou dessas... Eu me recupero e me regenero, como boa escorpiana que sou!
Rivotril é prescrito por psiquiatras a pacientes em crise de ansiedade – nos casos em que o sofrimento tenha causa bem definida. Mas tem sido usado pelos brasileiros como elixir contra as pressões banais do dia a dia: insônia, prazos, conflitos em relacionamentos. Um arqui-inimigo dos dilemas do mundo moderno.No Brasil, o Rivotril tem ainda outra vantagem importante. Repare: somos os maiores consumidores mundiais do remédio, mas estamos apenas na 51ª colocação na lista global de consumo de benzodiazepínicos. Ou seja: o mundo consome muitos benzo, nós consumimos muito Rivotril. Por quê? Por causa do preço. Uma caixa de Rivotril com 30 comprimidos (considerando a versão de 0,5 miligrama) custa em torno de R$ 8. O principal concorrente, o Frontal, da Pfizer, custa cerca de R$ 29. (Fonte Superinteressante).
Eu não quero comprar saúde em caixinhas, por isso trabalho com Arte e não, não sou contra pessoas que realmente precisam sob prescrição médica tomar esses remédios. Estou falando dos preguiçosos de plantão que apelam, por preguiça e cuidarem de si mesmos (tenho ótimos exemplos familiares.) É mais fácil se render a tarja preta do que se olhar no espelho, falar do que sente, mexer na "caixa preta", organizar emoções, abraçar, acolher, chorar, sorrir, sair de si mesmo mas também mergulhar num autoconhecimento profundo. O teatro me ensinou desde cedo a enfrentar isso, e muito do que sou devo a ele que salvou de grandes emboscadas, ou me tirou de situações difíceis...
Vivemos no mundo do caos, e o pior caos é o interno, com vestimos nossa "cara pastel" e saímos enganando o mundo, fingindo que somos super resolvidos, batendo metas, trabalhando no fim de semana para dar conta do que dissemos que podíamos fazer, abrimos mão da família e amigos e nos boicotamos...
Haja rivotril, prozac e a "puta que pariu" (hoje to rebelde!) para dar conta... até ritalina para criança, para segurar a onda anda rolando... Mas o que é isso? 
Não tem jeito, uma hora a maldita cabeça há que pousar em um travesseiro qualquer. E o cérebro imparável vai cobrar respostas. Mas se sequer temos perguntas bem resolvidas como elaborar saídas. Vemo-nos perdidos e não há nesse mundo um gps bom o suficiente para nos guiar na estrada rumo à morte. Sim, a morte está logo ali à espreita. Inexorável. O beco parece sem saída. E padecemos de pé. Padecemos quando despertamos. Estamos com tudo. Temos tudo. Acessamos tudo. No entanto, estamos completamente vazios no fim.
Insisto na Arte! A ARTE TRANSFORMA PESSOAS!!! Todos os dias! Sugiro uma aula de teatro bem dada, quero ver se o rivotril causa a mesma sensação... duvido! 
E acabo meu texto com uma breve frase de Guimarães Rosa que falava com meu amigo no café da manhã:

"Deus nos dá pessoas e coisas, 
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas 
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer"

Sinto muito vida, mas eu vou seguindo meu caminho, do meu jeitinho, às vezes devagarinho, às vezes atropelando o mundo, o importante é que estou sempre em movimento!!






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