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domingo, 3 de julho de 2016

O preço alto de ser honesto

Honestidade não é uma característica, é uma escolha em que você decide ser ou não! Claro, depende de educação e de uma série de outros fatores, mas sobretudo somos nós que definimos como agir quando ninguém está olhando. 
Cá para nós, em tempos medíocres e insanos, está na moda ser "honesto", ser "caridoso", mas essa moda só funciona se tiver foto na coluna social do jornal, ou comentários calorosos nas redes sociais do quanto você é "honesto". Não é bem essa honestidade que me interessa. A forma como nos comportamos quando ninguém está realmente olhando é uma boa maneira de identificarmos até quanto somos honestos, como tratamos o garçom, a faxineira, o porteiro quando não é "documentado" ou "compartilhado".
Mas porque sermos honestos num contexto onde os desonestos e mentirosos ganham a mídia e nada acontece, e eles continuam nos postos mais altos e vão muito bem, "obrigado". Mas pior que eles, são as pessoas próximas, que abusam da nossa paciência, abusam da nossa honestidade e boa vontade e nos "puxam o tapete", uma, duas, três vezes...quantas forem necessárias.
Eu decidi há muitos anos atrás trabalhar com arte, dignamente e honestamente. Nesses anos procuro sempre ser coerente entre o agir e o fazer, não entrei em partidos políticos, mesmo ouvindo que nós artistas somos seres políticos sim e precisamos nos inteirar de tudo. Desculpem, mas não concordo, faço arte, não faço política artística e tem uma grande diferença. Essa escolha de anos por vezes me faz refletir tristemente sobre se foi mesmo certo. Ando sobrevivendo de arte e não vivendo. Quanto mais sou correta e íntegra, mas passo trabalho, mas corro, menos tempo tenho, anos sem férias, trabalho em finais de semana e tenho que colocar no final do mês a prioridade das contas em cheque.
Malabarismos a parte, ando cansada! Cansada desse jogo podre de interesses, onde um telefonema é dado e "fulano" de tal está no evento, onde um orçamento é alterado e alguém que nem trabalhou ou passou horas acordado criando como eu faço, ganha três vezes mais que eu. Pior, quando roubam a sua ideia (na maior cara dura), mudam o nome e recebem em cima das suas horas e dias de projetos.
É certo? Não, não é! E seria bem mais fácil me deixar corromper e entrar no "jogo do sistema", o joguinho podre onde alguém sempre tira vantagem de tudo e de todos em qualquer setor ou época.
Eu já tive muitas oportunidades de virar "oportunista", trabalhei com muita gente influente e ainda trabalho e sim, podia "abusar" disso , mas há algo dentro de mim que fala mais forte e não deixa. 

Lembro que quando era criança, fui num barzinho comprar coisas para minha mãe e a moça saiu e eu vi uma caixa com 5 chicletes em cima do balcão, peguei um escondido. Ela voltou e contou um por um dentro da caixa, fiquei roxa e disse que havia pego mas ia pagar. Nunca mais! Nunca mais! Lição aprendida!
Minha vó sempre dizia que não podemos roubar nenhum botão sequer, que sempre alguém pode estar nos testando sem a gente saber... Na adolescência, na frente de uma loja encontrei uma carteira cheia de dólares, não pensei duas vezes, entrei e deixei no caixa (estava sem grana, seria convencional pegar um pouco, mas não podia pois um leão dentro de mim sinalizava "é errado"). O tempo passou, o leão só cresceu e a honestidade é mais forte do que nunca.
E não, não vou entrar no jogo para satisfazer opinião alheia, atraso contas, trabalho 24 horas se for preciso, mas não me rendo, minha arte é utópica, tem alicerce, tem consistência, eu sei o que consigo através dela. Uma ferramenta poderosa para quem sabe utilizá-la com o gatilho apontado para o bem.
Sigo assim, minha consciência é tranquila (diferente de muitos que conheço, inclusive os que agiram de má fé comigo). Liberdade...
Liberdade de ir, vir, explanar opiniões, liberdade para ouvir ou não, liberdade para dizer NÃO, como é bom dizer não sem precisar dar tapinhas nas costas. Provavelmente meus projetos demorem bem mais para serem aprovados (não conheço nenhuma "laranja"), meu círculo de amigos é bem mais reduzido, (não faço jantares com segundas intenções), tento primar pela qualidade sim, erro, erro muito na tentativa de acerto, mas sou humilde em reconhecer. Meu ego não me ultrapassa!
Verdade que às vezes me pego em momentos ruins, dizendo "não aguento mais", mas tenho fé! E acredito de verdade que tanto trabalho e dedicação por trilhar um caminho honesto tem sim um resultado positivo! O meu chega junto com abraço de aluno, com pessoas que dizem "sou fã do teu trabalho", com alunos que me escrevem na madrugada me dizendo o quanto fiz diferença na vida deles...Isso me basta!
Sou simples! Honestidade é simples! Basta você escolher...e por falar em escolhas, o que você tem escolhido ultimamente?

3 comentários:

Pedro Bertoldi disse...

Me fez pensar, Lisi. Infelizmente, ou felizmente, nossa profissão envolve o ego, a vaidade, a ambição, a inveja... enfim, o humano (nas suas melhores e piores facetas). Teu texto me fez pensar na ética da nossa profissão e como ela é posta a prova todos os dias. E como tu diz, é quando ninguém tá olhando. Quando não há a plateia é que realmente mostramos quem somos e o que estamos dispostos a fazer para alcançarmos nossos objetivos. Nossa profissão é um castelo e cada artista tem o seu. Uns constroem o seu castelo com bases sólidas, calcadas em honestidade, humildade, estudo, coerência, autoconhecimento, dor, sofrimento. Já outros, constroem com base em telefonemas, tapinhas nas costas, elogios forçados... mas esses são castelos de areia que por mais altos que sejam o vento e as ondas os derrubam com muita facilidade. Segue teu caminho e a construção do teu castelo que tenho certeza: é muito sólido. Um abraço desse amigo que sente muita saudade tua!

Elisabeth Bado disse...

Falou e disse!

Enio San disse...

Uma boa parte da minha vida profissional passei tratando de contrato de artista. Quanto custa/por quanto vamos fechar/condições de pagamento. E assine-se. Cumpra-se. Vou confessar aqui que só aprendi a importância do papel assinado depois que comecei a trabalhar com um artista inglês. Ele me dizia "já é tão difícil tudo para nós, ninguém faz idéia dos perrengues pra chegar ao estado de excelencia que o mínimo que exijo para sair de casa é dinheiro na conta, equipamento de qualidade e segurança. No papel. Se não, nada feito".
Dava um trabalho imenso seguir as diretrizes dele no começo (que empresário arrogante, quem ele pensa que é? roberto carlos já usou esse ônibus e não tá bom pra ele?) e deixei de fechar muito show por causa dessa 'cesta básica'. Mas durante 5 anos aprendi que: tratem bem do artista, tratem bem do público. Deixei o 'bundalelê' brasileiro de lado. É assim até hoje. Agora inverteu. Eu contrato os shows. Estou do outro lado do balcão. Negocio preço/condiçoes assino e cumpro: artista que vem por minha produçao se sente em casa, protegido e seguro. Consequentemente, entrega um espetáculo de qualidade. E volta, e espalha a experiência aos seus pares.
Esse textão é pra dizer que desde o ensaio, criação, pré-produção, produção, apresentação até a pós-produção o artista labora e muito. Tem contas pra pagar, filho pra criar e, como todo mundo, precisa descansar. E quero deixar o recado de que temos que ser exigentes - educados, polidos, firmes – ao tratar de nossos contratos. E que ser honesto é obrigação, cesta básica, inegociável e vale a pena justamente por conta da arte.

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