Páginas

domingo, 26 de março de 2017

As feridas que o teatro cura...

Sérgio Azevedo Fotos
Este fim de semana me reuni com as pessoas que fizeram o intensivo de verão em janeiro " O Ator e Sua Verdade", eram 17 pessoas, faltaram 7 e isso me incomodou um pouco no início, porque acho que precisamos ser comprometidos com nossa arte sim ou sim, e não só da boca para a fora, mas enfim, a proposta era nos reunirmos, após o grupo ser dividido e cada um ler uma obra de Peter Brook ("A Porta Aberta" e "Espaço Vazio"), a ideia era um seminário de discussões, depois vídeos e a prática dos exercícios. 
Voltamos a nos encontrar no mágico Solar Azul do Galo Cantante, da artista plástica Kira Luá, e em pouco tempo muito se viu, sentiu e se debateu. O teatro é uma dessas ferramentas de auto conhecimento completamente desacreditada, falo isso porque, a princípio ninguém leva muito a sério... as pessoas o costumam procurar para passatempo, para "perder a vergonha", para desestressar ou simplesmente " ocupar seu tempo vazio." Falo da minha realidade Serra Gaúcha, claro, e sempre há excessões. Mas são bem pouco que são coerentes com o que dizem... todos "amam" o teatro, mas o trocam por alguma festa, ou janta de amigos num piscar de olhos e se facilitar, te deixam na mão por bobagens... Mas não vou entrar nessa questão, porque tenho aprendido duramente que cada um dá o que tem, então não posso cobrar de quem não tem maturidade ainda, para me dar comprometimento. 
Voltamos ao encontro! Nesse encontro, rápido mas preciso pude novamente constatar o quanto o teatro cura (e não acho que ele seja terapêutico), ele cura porque trabalha emoção e é Arte! Mas para curar é preciso querer ser curado e mergulhar fundo nessa emoção, nas suas impossibilidades, nos seus medos, nas suas dúvidas, e isso dói. Partimos de Peter Brook mas improvisamos não Shakespeare em nosso "tapete", improvisamos sobre nós mesmos e toda nossa gama de problemas...
Mergulhamos e voltamos (porque mais importante que mergulhar é saber voltar e colocar a cabeça fora do mar de emoções internas). Rimos, choramos, estudamos, discutimos, debatemos e constatamos tanta coisa... foi intenso!
Cenas fortes, monólogos, personagens, criador e criatura...músicos, atores, cantores, amantes do teatro... Foi quem realmente "precisava" ir. 


Intensivo 2017

"Há espaço para a discussão, para a pesquisa, para o estudo da história e de documentos, assim como há espaço para berrar, uivar e rolar pelo chão. Há, também, espaço para o relaxamento, para a informalidade, para a camaradagem, mas também há o tempo do silêncio e da disciplina e da concentração intensa." Peter Brook 

E a pergunta que sempre faço: porque você faz teatro? O que te moveu até aqui? (em uma palavra)

Facilitadora: Lisiane Berti

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre "afastamentos" que se tornam agradecimentos

Tem gente que entra e sai da nossa vida em um piscar de olhos...amigos de infância que ficam e se vão, colegas de aula, vizinhos, primos, colegas de trabalho, namorados, amigos, amigos só de festa, até gente da família. E vejam só, não estou falando de morte. Nem de separação de casais...estou falando de afastamentos... 
Eles ocorrem durante toda a nossa vida, às vezes sofremos muito por não entendê-los, relutamos, tentamos buscar explicações do porquê isso ocorreu...
Durante muito tempo da minha vida eu sofri por "afastamentos", eu não entendia porque "do nada" algumas pessoas simplesmente sumiam, não me cumprimentavam, paravam de me ligar, perdíamos contato. Caminhando pela rua via "fulano de tal" que já tinha sido meu "melhor amigo" e que mal de dera oi, como total estranho. Outras vezes um "ex", que educadamente (se não tivesse com a atual, porque elas sempre tem ciúmes) dava um "oi" afônico e eu me perguntava "Credo, já beijei essa boca e ele me dá esse oi murcho, como assim?"
Um amigo querido sempre me diz que temos que virar a página e aceitar que dói menos. Essa semana entendi mais esses "afastamentos necessários". Me reuni com minhas colegas do Ensino Médio, minha turma de 20 anos atrás, a turma de festas e saideiras de muita história que guardei nas minhas agendas/diários... De repente estávamos ali, sentadas, rindo muito e é como se nunca tivéssemos nos separado. Então, nos afastamos fisicamente, mas o laço criado permaneceu... Podemos dizer que não houve afastamento real.
O que não admito, o que me irrita e me falta evolução suficiente para entender (que meus guias espirituais me perdoem) é como que alguém, amigo, parceiro, companheiro, que te conhece, que partilhou das tuas dores e amores, que te ouviu que te confessou a alma, de um dia para o outro começa a sumir do mapa, te deleta como se você fosse uma "goiaba bichada". Aí você fica naquela dúvida, falo ou não falo, procuro ou não? (eu sempre falo e procuro porque gosto do olho no olho)mas não insisto muito não. Muito sábios os que dizem que teu pior inimigo é teu ex amigo, porque conhece teus "detalhes mais sórdidos".
Hoje, com 40 anos na cara e muitos tapas, aprendi que os afastamentos são necessários, é a velha seleção natural. Quem tem que chegar chega, quem tem que sair SAI!. Simples assim e está tudo certo, meu povo! As galinhas mais fracas do galinheiro morrem porque não conseguem chegar perto da água...
Segundo Darwin, "por exemplo, em um ambiente específico, apenas as espécies que possuem as condições ideais de sobrevivência conseguirão se reproduzir e transmitir para os seus descendentes as mesmas características genéticas e fenotípicas que garantam a perpetuação da espécie naquela região. No entanto, as espécies que não possuem os fenótipos adequados para sobreviver neste ambiente, não conseguirão se reproduzir e morrerão, sendo lentamente extintas."
Não entendeu? Vou explicar: a seleção natural está presente sobre todas as populações de seres vivos, seja em ambientes estáveis ou constantes, atuando como um “estabilizador”, eliminando as espécies mais “fracas” e garantindo a sobrevivência dos organismos mais fortes e aptos em sobreviver.
Os fortes sobrevivem queridinhos, e ouso dizer que não basta ser forte, é preciso ser inteligente!!! Quase estratégico! Então como estamos nessa cadeia evolutiva, vai estar com você quem é como você! Por mais que você tente ser generoso e levar no colo os "fraquinhos" eles em algum momento começam a pesar, e você para poder continuar a sua caminhada, vai ter (querendo ou não, sofrendo ou não) de deixá-los! Cada ser tem seu caminho, sua evolução, sua função! A vida te dá o que você PRECISA e não o que você quer...então presta atenção no que anda pedindo e no que anda fazendo, para depois não reclamar...
Alguém virou a cara para você? Alguém que era muito conhecido hoje é estranho? Alguém que frequentava tua casa e da tua família "sumiu do mapa"? Aquele parceiro de festa não quer mais fazer a TUA festa? Afastamento necessário meu bem! Relaxa, agradece e segue! A vida só nos ensina, o problema é quem nem sempre conseguimos enxergar além da tela do nosso celular. Agradece e sorri! Você é forte! Você é grande! Mas não seja pretensioso!
Apenas cuide melhor de você e não se preocupe tanto com o afastamento alheio... o que é seu de verdade não se afasta, só aparece quando é necessário!  É como coisas importantes que perdemos dentro de casa... na hora certa, geralmente quando desistimos de procurar, BUM! Aparece e a gente diz: "olha o que eu achei?" ou "olha onde estava..." e para nossa surpresa, bem debaixo do nosso nariz... e simplesmente não vimos...
Dizem que o amor é assim!!! (momento deboche) Podia ser né! Imagina encontrar alguém próximo e se dar conta que era tudo que você queria e estava ali, bem pertinho...
"Afastar-se é deixar-se evoluir"...tudo tem seu prazo de validade meus queridos, e não podemos lutar contra isso, a não ser que você curta "carniça". Há quem nasça para urubu e pense que é cisne....(momento deboche dois).






terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre a coragem de seguir o sonho!!


Quem em sã consciência, abriria um Estúdio de Pesquisa Teatral no atual momento conturbado que o país passa, onde ninguém sabe o dia de amanhã, investindo em pessoas e teatro, e sem praticamente muito dinheiro no bolso? "Euzinha aqui, pessoal!". A louca, a diferentona, "aquela do teatro"...sim, sim, sim...muitos adjetivos para uma única aposta: seguir meu sonho!!
Mas que sonho é esse que não podia esperar mais um pouco? Amigos, ele espera já fazem uns 10 anos, estava engavetado nos meus planos secretos, houve momentos que quase desisti dele, ou deixei ele de lado em função de outras prioridades. Mas quando você tem um propósito, quando você escuta seu coração e o alinha com sua alma, aí minha gente, a responsabilidade é diferente!
Faz um tempo escolhi não fazer teatro por fazer, ou para agradar, ou para ganhar dinheiro (cá para nós, nessa profissão não se ganha "rios de dinheiro", pelo menos não todo o tempo), sentia através das minhas aulas que precisava utilizar o teatro como uma ferramento de acesso para trabalhar "AS" pessoas e não apenas "COM" pessoas... Que tipo se ser humano queremos e podemos ser de verdade?
Onde exorcizar medos, angústias, trabalhar emoções  sem ser no divã do analista e psiquiatra? Obviamente que no palco, transmutando tudo isso em criatividade!
Primeiro é preciso dizer que no Estúdio de Pesquisa Teatral não temos como objetivo único formar artistas, mas antes, desenvolver pesquisas em Arte. O que queremos é nos envolver em processos de criação capazes de nos desafiar e alterar nossas possibilidades no mundo, “formando pessoas melhores” fortalecendo nossa identidade e resgatando nossa autoestima.
Cada ano, cada professor/pesquisador terá a liberdade de iniciar, continuar ou encerrar sua pesquisa na sua área de atuação, com o público alvo que lhe convém, dentro de um embasamento teórico, que será publicado na revista do estúdio anual, afinal toda pesquisa precisa chegar a um resultado (seja positivo ou negativo) pois a criação artística é a construção de um discurso que se constitui de ideias, materiais, linguagens e argumentos poéticos e a necessidade de expressá-las de algum modo. Cabe a quem cria descobrir, mesmo em meio a uma cidade caótica ou pequena, como Canela, uma potência que deflagre um processo de criação.
Queremos seres criadores e não apenas, consumidores.  Enfim, um espaço de diálogo, encontro e transformação!!

E como diria Beckett ...

“Você não pode se esconder; seu crescimento como artista não está separado de seu crescimento como ser humano: é tudo visível.”

Visita nossa página no face:
 https://www.facebook.com/estudiodepesquisateatral/?fref=ts





quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O primeiro rivotril a gente nunca esquece...


Saio cedo para uma hora marcada pela manhã, feliz cantando e dirigindo ao som da minha música preferida "Sittin'on The Dock of the Bay" (Otis Redding) que até Helena já quer cantar nos seus quase dois anos de vida; chego 15 minutos antes do previsto no local, achando que estava arrasando e quando aperto o interfone descubro que minha hora era a tarde. "Putz". Vou para o café ao lado e no caminho converso online com um amigo que decide me encontrar no café. Papo vem, papo vai, falamos de Arte, cordel, utopias, projetos... (tão bom falar com gente inteligente e que não usa o pronome pessoal "EU" em todas as suas frases). Ele sai, chega outra amiga, cantora! Falamos sobre as escolhas, intuições, dificuldades de falar o que fica engasgado. Ao lado um casal querido, amigo, vou até eles, abraço e cumprimento. Volto para casa quase meio dia. O planejado não aconteceu, mas o universo conspirou para outra coisa... Chego em casa e me deparo com a cartela de rivotril que ganhei (não vem ao acaso dizer de quem) pois comentava da minha absurda ansiedade...
Nunca fui fã destes remédios...e sim, tomei um numa noite, e não aconteceu nada. Acho que todo o café do meu corpo foi mais forte (graças a Deus!). Pensei se queria vegetar ou reagir? Se queria ficar inerte diariamente aceitando tudo " de boa" ou viver minha vida "mode on louca". Um ansiolítico, ficamos melhor para os outros e cada vez pior com nós mesmos..."JAMÉ"!!!
Botei a cartela fora! Toda ela e dei risada! Acham que me pegam né? Não! Acham que me rendo por tão pouco? Nunca! Acham mesmo que quero levar uma vida de "abostada" com olho parado, numa calma fingida apática ao meu entorno? Não sou dessas baby...não sou dessas... Eu me recupero e me regenero, como boa escorpiana que sou!
Rivotril é prescrito por psiquiatras a pacientes em crise de ansiedade – nos casos em que o sofrimento tenha causa bem definida. Mas tem sido usado pelos brasileiros como elixir contra as pressões banais do dia a dia: insônia, prazos, conflitos em relacionamentos. Um arqui-inimigo dos dilemas do mundo moderno.No Brasil, o Rivotril tem ainda outra vantagem importante. Repare: somos os maiores consumidores mundiais do remédio, mas estamos apenas na 51ª colocação na lista global de consumo de benzodiazepínicos. Ou seja: o mundo consome muitos benzo, nós consumimos muito Rivotril. Por quê? Por causa do preço. Uma caixa de Rivotril com 30 comprimidos (considerando a versão de 0,5 miligrama) custa em torno de R$ 8. O principal concorrente, o Frontal, da Pfizer, custa cerca de R$ 29. (Fonte Superinteressante).
Eu não quero comprar saúde em caixinhas, por isso trabalho com Arte e não, não sou contra pessoas que realmente precisam sob prescrição médica tomar esses remédios. Estou falando dos preguiçosos de plantão que apelam, por preguiça e cuidarem de si mesmos (tenho ótimos exemplos familiares.) É mais fácil se render a tarja preta do que se olhar no espelho, falar do que sente, mexer na "caixa preta", organizar emoções, abraçar, acolher, chorar, sorrir, sair de si mesmo mas também mergulhar num autoconhecimento profundo. O teatro me ensinou desde cedo a enfrentar isso, e muito do que sou devo a ele que salvou de grandes emboscadas, ou me tirou de situações difíceis...
Vivemos no mundo do caos, e o pior caos é o interno, com vestimos nossa "cara pastel" e saímos enganando o mundo, fingindo que somos super resolvidos, batendo metas, trabalhando no fim de semana para dar conta do que dissemos que podíamos fazer, abrimos mão da família e amigos e nos boicotamos...
Haja rivotril, prozac e a "puta que pariu" (hoje to rebelde!) para dar conta... até ritalina para criança, para segurar a onda anda rolando... Mas o que é isso? 
Não tem jeito, uma hora a maldita cabeça há que pousar em um travesseiro qualquer. E o cérebro imparável vai cobrar respostas. Mas se sequer temos perguntas bem resolvidas como elaborar saídas. Vemo-nos perdidos e não há nesse mundo um gps bom o suficiente para nos guiar na estrada rumo à morte. Sim, a morte está logo ali à espreita. Inexorável. O beco parece sem saída. E padecemos de pé. Padecemos quando despertamos. Estamos com tudo. Temos tudo. Acessamos tudo. No entanto, estamos completamente vazios no fim.
Insisto na Arte! A ARTE TRANSFORMA PESSOAS!!! Todos os dias! Sugiro uma aula de teatro bem dada, quero ver se o rivotril causa a mesma sensação... duvido! 
E acabo meu texto com uma breve frase de Guimarães Rosa que falava com meu amigo no café da manhã:

"Deus nos dá pessoas e coisas, 
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas 
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer"

Sinto muito vida, mas eu vou seguindo meu caminho, do meu jeitinho, às vezes devagarinho, às vezes atropelando o mundo, o importante é que estou sempre em movimento!!






sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Eu ainda não entreguei os pontos...ainda!



Um dia para o Natal! Uma angústia profunda... Nunca foi uma época que eu gostei, nem quando criança pois temia o Papai Noel, depois cresci e comicamente fui trabalhar com vários deles, todos os anos na época de Natal, teatralmente. Esse natal de 2016 tem um gosto de tristeza, não há como fechar os olhos e comer peru se empanturrando de espumante sem pensar nas atrocidades que o mundo tem passado. A guerra na Síria, o atual presidente do país e toda a corrupção abusiva vindo à tona, nosso Estado do Rio Grande do Sul quebrado com um governador que extinguiu diversas fundações importantes... tem um cheiro podre no ar...talvez o "peru" queimou.
Há os que conseguem fechar os olhos e seguir na sua redoma de vidro, achando que são impenetráveis, que nada vai lhes acontecer, afinal eles tem dinheiro e abusam da arrogância para humilhar os outros.
Hás o que continuam postando cada ação do seu dia nas redes sociais, fingindo ser o que não são, os "carentes" em busca de curtidas e papos fúteis. Há os que argumentam e brigam por tudo e na verdade não sabem nada, há os politizados, que sempre tem um discurso ensaiado para tudo, o ano mal termina e eles já se preocupam em "como  vai ser?", "mudou o partido", "quem vai assumir tal pasta".
Ando sem paciência para isso tudo e triste também por presenciar isso tudo. O que fazer? Entregar os pontos, tomar rivotril, tornar-me apática, entrar no sistema corrupto, mentir, bajular? Como olhar minha filha dormir tranquila e feliz e pensar em toda a Guerra da Síria e em quantas crianças que como ela perderam a vida, ou nos pais que perderam e perdem seus filhos assim, "do nada", porque o país estava dando certo, porque é um dos únicos que o petróleo ainda era deles, gerenciado por eles. O jogo do interesse faz isso! Seres humanos matando seres humanos! Bolsos cheios, carro do ano, plástica, jatinho particular, namoradas 50 anos mais jovens (nada contra falo especialmente dos políticos)... Pra mim e muitos outros é difícil ver isso e não ficar tocado, cansado, triste e sem ação.


Eu ainda faço Arte, a que eu acredito mas me pergunto...até quando vou conseguir fazer? Até quando minha arte poderá de fato fazer a diferença e não cair nas "políticas públicas" e no "tapinha nas costas"? Até quando vou seguir correndo, estudando, fazendo mil coisas pela arte que acredito valha a pena. Tudo parece escuro...tudo parece um pouco confuso. Porque se preocupar? Pra quem fazer a diferença? Anos de luta aqui no Sul foram por água abaixo com cortes e pacotes absurdos... nosso país em crise de valores total, violência crescendo, guerras e guerras eclodindo, catástrofes... é de tirar o fôlego! Parece que carregamos nas costas o peso do mundo, um mundo de trevas, de escuridão... parece um retorno a Idade Média...
Vida segue! Natal vem aí! Podemos fingir que nada está acontecendo e tirar selfies pomposas para garantir inveja alheia ou ficarmos em reflexão e oração. Sim amigos, rezar ainda é o que nos resta! Afinal só se pode juntar as mãos, quando estas estão vazias...















Eu desejo a todos um Natal reflexivo, de introspecção, que nos voltemos para dentro de nós e repensemos os nossos valores e crenças, lembremos do outro, o outro que pode ser meu vizinho, minha família, meu aluno, ou um desconhecido. Que não nos percamos de nós em primeiro lugar e saibamos estender a mão ao outro... acredito que de algum lugar do UNIVERSO alguém nos envia tolerância, luz, vida e amor para nossas almas. Feliz Natal, então...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quando o artista não atrapalha a si mesmo...


Segundo Rollo May, em seu livro "A Coragem de Criar", ao longo da história artistas e cientistas concordam que, em seus melhores momentos, sentem que algo fala através deles. Eles conseguiram, de alguma forma, não atrapalhar a si mesmos. Alguns dizem que Deus fala através deles. Outros afirmam, em estilo mais modesto, que a fim de não atrapalhar a si mesmos e evitar o lobo frontal do cérebro, vão dar um passeio na floresta ou tiram uma soneca. Eles têm de tirar a cabeça daquilo que estão tentando fazer, a fim de obter as conexões mais inspiradas. A mente está sempre alerta para emboscar o processo. As descobertas e os achados acontecem quando você consegue não atrapalhar a si mesmo.
Não podemos criar resultados, só podemos criar as condições para algo acontecer. Os resultados surgem por si só! Cada artista precisa de seu espaço dentro de sua criação para fazer o seu próprio trabalho. Ensaiar não é forçar as coisas acontecerem, é ouvir.

Mas há diretores e atores que não sabem ouvir, e acabam atrapalhando seu processo de criação e consequentemente a si mesmos... às vezes você só tem de fazer, e não pedir opiniões de como fazer. Siga seu impulso, siga sua intuição, acredite na sua primeira ideia, aquela que você insiste em trocar e dizer que não está boa...

A parte do cérebro que pode facilmente desviá-lo de sua rota é conhecida como lobo frontal. Ela produz aquele zumbido permanente em sua cabeça que quer censurá-lo e está a espreita pronto para atacar qualquer movimento que você faça. Para encontrar um fluxo criativo, você tem que ocupar o lobo frontal com algum outro trabalho para que ele não se coloque no seu caminho. Só então, uma vez contornado o obstáculo do zumbido penetrante, é que você pode começar a seguir uma pista estética ou um capricho criativo. Somente depois disso, você pode começar a confiar em seus instintos. Uma vez que você estiver livre para ser espontâneo, a intuição poderá ser seu guia.

Os artistas insistem em se preocupar demais com a crítica alheia, com o crivo do "fulano de tal" e esquecem de olhar para dentro de si, de buscarem respostas na sua inspiração. Atrapalham-se! Perdem tempo com espetáculos desnecessários que não agregam em nada e enchem momentaneamente o bolso de dinheiro para um "extra teatral" sem valor estético e social algum.

O artista que não se atrapalha, sabe que a arte começa na luta pelo equilíbrio. O desequilíbrio produz uma dificuldade que é mais atraente e frutífera. De repente você se encontra fora do seu elemento e fora de controle É aí que a aventura começa. Quando se aceita de bom grado o desiquilíbrio, você sai exatamente da sua zona de conforto e se sente pequeno e inadequado diante da tarefa que tem pela frente. Mas os resultados desse empenho são muito mais satisfatórios.

Minha pesquisa "O Ator e Sua Verdade" vem dentro desta perspectiva de treinamento e descoberta do ator, primeiro ele precisa se auto conhecer e organizar suas emoções e depois se expor. S ele tiver humildade e disponibilidade suficiente para isso, e não atrapalhar o processo ele sairá da sua zona de conforto e é aí, que a Arte/vida começa. O desconforto provoca interesse, busca, pesquisa, medo, a curiosidade. Ser ator é muito mais que "vestir" um personagem e dar intenção a este ou aquele texto, para criar um personagem antes, você precisa mergulhar dentro de si, as respostas estarão todas ali, dentro de você, das suas experiências e vivências e também carências e insuficiências... é como fazer uma maquete e alguém acidentalmente bater no seu projeto, isso permite olhar os elementos de uma forma inteiramente nova.

As coisas sempre saem erradas. É comum acontecer algo que você não planejou. Sigmund Freud sugeriu que não existe acidente. Será o acidente um sinal? Quando algo dá errado nós recuamos e queremos reavaliar. Mas será que não poderíamos inverter esse impulso? Aceitar positivamente a energia desse acontecimento inesperado? Ir a fundo e não esquivar-se. Mas se você é atrapalhado com suas ideias e emoções o seu primeiro ímpeto será fugir, desistir ou se fechar, esperando um "milagre" que nunca virá.  Não podemos controlar demais nem sermos caóticos demais! Esteja alerta, fique pronto para o inesperado, não se esconda, pare um pouco a lição de casa que algo criativo e acontecerá. E com toda certeza será adequadamente desconfortável!!

Fonte: "A Preparação do Diretor" de Anne Bogart



sábado, 3 de dezembro de 2016

Era uma vez um coração de menina em corpo de mulher


Geralmente quando durmo coloco as duas mãos sobre meu coração. Sinto! Escuto e até converso com ele. Penso em quanto desgaste já teve ao longo desses 40 anos, em todas as guerras que travei em nome dele, todos os trabalhos que fiz onde ele sempre falou mais alto, todos as perdas e dores que tive por preenchê-lo sempre acreditando que seria possível! Eu sempre acredito! 
Aproximando-se do Natal, me vem a imagem dele como um "chester" (debochada sim!), todo remendado, mas cheio, cheio de coisas boas! Cada costura uma história, cada fio transpassado um caminho que cruzei, um homem que amei, um texto que criei, um personagem que atuei, as filhas lindas e iluminadas que me presentei! Meu coração é jovem, cheio de vida e de muitas histórias para contar. (Graças a Deus!).  Minha filha diz que eu pareço uma adolescente às vezes, quando me empolgo com as coisas ou com as pessoas. Uma intensidade absurda! Mas as pessoas não entendem e nem gostam disso. (Sinceramente, problema delas, cansei de tentar explicar...)
Eu sempre verbalizo o que sinto, para quem acho que valha a pena! Procuro me fazer entender da forma mais clara possível, quando gosto e desgosto.  Não sou água morna! Não sou o que querem que eu seja, sou eu, sempre eu, autenticamente e loucamente eu! Acho que a vida é uma pluma para perdermos tempo com esperas prolongadas, com gente enrolada, gente que não trabalha seus traumas e dores, gente abusada, gente que brinca com sentimentos alheios achando que isso nunca vai voltar, gente que ama de forma egoísta, ou seja, tudo tem que ser como e quando ela quer...o outro?O outro que espere ou se dane! Ceder faz parte mas precisa haver equilíbrio...com o passar do tempo, analisando minhas relações sociais, familiares, profissionais e amorosas, percebi que durante muito tempo eu sempre cedi, sempre dei meu melhor mesmo quando o outro não tinha nada a me dar. Eu tinha (e tenho) tanto amor dentro de mim, que eu compartilhava em dose dupla, no início isso bastava, meu coração alertava e lá na frente ficamos eu e ele, batendo sofrido. Chorávamos sozinhos num travesseiro qualquer e eu questionava: O que eu fiz de errado? Por quê? De novo isso se repetindo?
Anos de histórias e muitas lágrimas depois, começo a entender a linguagem do meu coração, continuo amando muito , mas não deixo mais abusarem do meu amor. Me conectei comigo, e descobri que meu primeiro amor serei sempre eu, depois minhas filhas, meu teatro, minha vidinha louca e corrida que tanto amo... Aprendi a dizer não! E que delícia dizer "não" sem culpa! Aprendi que não posso esperar das pessoas o que não podem me dar, então sutilmente me afasto, deixo elas no tempo delas, com suas convicções e confusões, não compartilho mais amor com quem não se deixa amar. Não perco mais meu tempo!
E assim são os amores, os trabalhos e os amigos...só estão realmente perto de mim os que assim como eu, amam de verdade sem esperar nada em troca. Não abro mais as portas da alma para todos, verbalizo muito, mas minha essência é preservada. Aprendi a me proteger, a me cuidar melhor, a evitar noites sofridas por gente desnecessária. Respiro fundo, ainda estou longe de onde quero chegar mas já me movimentei muito de onde estava.
Quero presença, colo, carinho, palavras legais, (flores, não!). Quero gente que assim como eu se esforça para caramba para que as coisas aconteçam sem pensar só em dinheiro. Me emociono com coisas tão bobas às vezes, fico feliz com reconhecimentos simples, não quero capa de jornal, não quero cargo político, não quero fama! Quero alma, quero sentido para minha vida e minhas escolhas, sejam elas quais forem.
Não tenho medo de ser feliz, nem de me expor, mas já não o faço pra chamar atenção. Só para quem vale a pena. Me recolho quando ignorada, fico quieta quando criticada (se tiver argumento), repenso, recomeço quantas vezes forem necessárias, luto, esbravejo, passo horas em claro se digo que vou entregar tal material em tal hora, palavra para mim é lei!  E se der minha palavra, pode ter certeza que vou cumprir.
Portanto, se você não pode me dar sua verdade, ou se finge que é de verdade, nem se aproxime muito, porque eu não posso te ajudar e não quero ser cruel com meu coração. Se fizer isso de novo, ele me coloca de castigo. Estamos muito bem eu e ele, há muito tempo, temos nos recuperado bravamente de tudo que passamos juntos, e olha que não foi pouca coisa. Um dia te conto dando risadas e tomando um bom café, porque tudo acaba em Arte! Tudo vira palco! Tudo vira história para contar...
E se minhas histórias e minha forma de ser puder auxiliar pessoas que assim como eu, sentem as batidas do seu coração nesse mundo doente e ingrato, BINGO! Te quero comigo! Bem do meu lado! 
Porque escrevi isso? Achei um rascunho de um texto de 2014 que não acabei, a chuva de hoje me inspirou nesse texto simples, que não é desabafo nem recadinho para ninguém, até porque estou sozinha, tranquila e feliz (pasmem!!).
Mais café, beijos na boca e coração por favor...o resto a gente esquece um pouquinho!
O mundo tá chato, com muita gente chata falando de coisas chatas...falta autoconfiança! Falta coragem de assumir a delicia de ser o que se é!


VideoBar

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.