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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A maturidade de cada aniversário



Ontem completei 41 anos e incrivelmente me sinto com a energia dos 16 porém muito mais centrada. Diferente do ano passado, este ano fiquei quieta no meu canto, só com minhas filhas, meio que "escondida", curtindo minha casa e repensando a vida com café. É meio clichê repensar a vida, mas é quase impossível não fazer uma análise de como foram os 40 e do novo ciclo que se inicia.
Uma das coisas mais legais que aconteceram foram as inúmeras mensagens de carinho recebidas ontem de pessoas conhecidas, amigos, ex alunos, novos alunos e até ex amores, sobre o quanto eu "transformo" vidas com minha Arte, minha luz... 
Há um tempo ficaria sem jeito mas hoje, depois de muita estrada e trabalho, pensando em quantos alunos de teatro já tive, realmente eu transformo. Isso porque amo de todo coração o que faço, aprendi a usar minha intuição, a sentir mais e reclamar menos, estudando muito. Sou sim, uma grande batalhadora da minha Arte!
A vida é espetacular, e me dei conta do quanto sou feliz com o que tenho, com a vida que escolhi, com os amigos próximos, com minha casa, minhas filhas lindas e meus livros. Sou pessoa simples de gosto simples. 
Meu coração anda calmo, saiu de um coma profundo de dor e tristeza, está mais leve e quase pronto para novas emoções. Não tenho saído muito, não tenho mais paciência para algumas coisas e prefiro estar mais na minha, produzindo, escrevendo, e isso me faz muito bem. Meus sonhos triplicaram... realizei muitos e há vários outros em andamento. Jamais me tirarão a capacidade de sonhar e realizar, porque acredito muito no que faço e na qualidade da minha Arte que não me foi dada da noite para o dia.
Tenho aprendido a valorizar mais os que amo e isso me faz entender que posso perdê-los a qualquer hora, como tantos outros que já se foram, e o quanto é importante deixá-los melhor quando os encontro. Me revisitei e estou tentando me reinventar mais uma vez.. olhei fotos e me achei bem melhor agora... mais senhora de mim, independente de cabelos lisos ou não, gorda ou magra, de tênis ou salto, com maquiagem ou descabelada. Sou mais eu! A opinião dos outros de repente passou a não ser relevante, a opinião dos amigos de verdade sim, essas importam.
Minha filha me chamou atenção esses dias, dizendo que eu andava muito "dura" com as pessoas, ela como boa libriana é meiga e quer salvar o mundo, eu como boa escorpiana, sou sincera e ultimamente só quero me salvar desse mundo doido e contaminado de gente chata e sem conteúdo! Desculpe, mas tá foda ser legal e só recebe crítica de gente sem argumento!
Meus ex amores, hoje são grandes amigos e isso me conforta, saber que consegui separar as coisas e evoluir em relacionamentos. Ando sozinha e curtindo pra caramba minha vida, meu tempo, minha casa, meus cafés comigo mesma. A qualidade do meu tempo não tem preço. troco tudo pelo prazer de ficar na minha casa, que quase nunca fico, por isso valorizo tanto!
Ah, aprendi a dizer não! Não faço mais nada que me deixe infeliz para agradar ninguém! Me demiti de três lugares esse ano, mudei, de cabelo, de ideia,de atitude... eu sempre mudo. Sou perita em regeneração. Quando não gosto falo. Quando gosto, falo!  Eu sempre falo! O que minha filha chama de "dureza" eu chamo de "maturidade"! A maturidade também dói, também é sofrida, porque na hora da dor, é sempre você com você mesmo, no fim das contas. Ninguém vai te ajudar, é você que tem esse poder! Só você!
Tiveram algumas mensagens que realmente me fizeram pensar muito na qualidade da pessoa que sou e que ainda posso melhorar e vir a ser, e isso realmente foi fantástico! Tenho trabalhado com muita gente especial, gente talentosa, gente honesta e comprometida mas também com gente que devia para de usar teatro como espelho do seu ego doentio. Me afasto! Estratégia! Tem funcionado. Não brigo mais, mas não preciso conviver com gente aproveitadora que se aproxima quando precisa de "trabalho" ou curso de graça... como seu eu não soubesse ler nas entrelinhas...
Vivo bem! Não acredito mais nos contos de fadas nem no príncipe encantando, a vida me ensinou que sou a Rainha de Copas da minha própria vida, e que se quiser algo , tenho que fazer acontecer...
Recebo meu novo ciclo de 4.1. feliz, turbinada (cheinha de curvas deliciosas), segura de quem sou e do que quero para mim. Ou está comigo ou não me atrapalha... Me achou egoísta? Não me julgue, você não conhece minha história, mas te convido a tomar um café e bater um papo. Depois de conviver cinco minutos comigo, vai me odiar ou me achar extremamente interessante. Não sou meio termo!
Seguimos sempre!!
Feliz aniversário de serenidade para mim!!!



domingo, 15 de outubro de 2017

Automákina encerra com chave de ouro o Bonecos Canela 2017

Automákina - Sergio Azevedo


Depois de nove dias de uma programação que se propôs a discutir Diálogos entre Bonecos e Tecnologia seja no recurso ou na temática, a 29º edição do Bonecos Canela encerrou com um lindo dia de sol (depois de vários dias chuvosos e frio), comemorando os 29 anos da Cia de Pernas pro Ar de Canoas e nos fazendo refletir profundamente sobre nós mesmos. 
"Automákina Universo Deslizante", espetáculo instalação, nos fez pensar sobre o mundo que construímos, quem somos, a solidão que nos aprisiona e nos liberta, e a verdadeira máquina que faz tudo funcionar: o coração! O mundo pessoal e impenetrável do Duque Hosain´g, nos faz pensar sobre o tempo que está a nossa disposição, e o quanto na verdade, ele dispões de nós. Tudo a nossa volta é o reflexo da energia de como fazemos e de quem somos, afinal não há como fugir de nós mesmos. Que Universo temos criado para nós, afinal? Presos nos tornamos livres... livres ficamos presos a qualidade do nosso tempo. E quando nos damos conta, um alarme soa ensurdecedor dentro de nós mesmos, alertando que já não há muito tempo, e que não temos controle de absolutamente nada, mesmo que tenhamos passado a nossa vida inteira tentando controlar tudo. Nos isolamos, criamos realidades paralelas, numa ânsia torturante era nosso coração já não dá conta de bombear os restos que sobraram de nós, dos nossos sonhos... e esse ritmo compassado soa como uma prece, um grito que tantas vezes sai sem som da boca do personagem...
Da tecnologia e engenhocas da Automákina, do clássico primoroso da Cia Artesanal "O Gigante Egoísta" com seus atores orgânicos e do "Viva Gustavo" que gritamos mais de uma vez (na ânsia de recuperação do componente da cia com problema de saúde), da simplicidade do "Entre Janelas" e da amizade de Pitu e o menino que nos comoveu amavelmente, do espantalho da Merlim Puppet Theatre da Grécia que nos arrancou lágrimas falando da solidão de um espantalho numa Terra de Ninguém, do divertido e carismático alemão Thomas Herfort e suas marionetes divertidas e tão carismáticas, sobretudo com as crianças que animou a todos, dos romenos divertidos (e cachaceiros no bom sentido) de Gulliver e sua projeção em 3d que nos deixou interagindo entre bonecos e animação, do Bóris, o leão robô da Circatronic, que infelizmente não conhecemos e o drama do espanhol Oriol que perdeu suas bagagens (perderam na verdade) e ele não pode apresentar, dos divertidos manipuladores da Marionetes Guarujá de SP e sua irreverência, do retorno do Quiquiprocó e do seu simpático boneco Rodrigo, ouvir o cachorro mais charmoso de todos os tempos, Abelardo, que já foi mestre de cerimônias desse festival com seu humor canino,  das cias de Canela e Gramado que se uniram lindamente, mais de uma vez para desfiles, gravações e entradas ao vivo, oficinas e como público. A qualidade dos dois bate-papos, o retorno de mídia, a apropriação da plateia do festival, a homenagem irreverente na abertura a presidente da Fundação Ana Glenda Viezzer... foram tantos motivos para comemorar, que a gente até esquece das dificuldades, das picuinhas de bastidores, dos "pavões" que aparecem querendo colher louros, da chuva que atrapalhou sim a programação de rua mas nem por isso deixou de acontecer...
Canela, cidade pequena, mas de coragem gigante, de povo simples mas de alma nobre...
Assim somos nós... daqui muitos saíram para ganhar o mundo nos caminhos da Arte , e outros tantos ainda sairão...
Esse festival é de todos nós, das pessoas que o iniciaram, das pessoas que o levaram adiante, das pessoas que se projetaram com ele, das pessoas que ainda virão a apresentar/trabalhar/coordenar/produzir nele. Todos ganham com este festival... artistas, comunidade, turistas, Canela ganha! E pode ganhar muito mais, se passar a trabalhar ainda mais em conjunto, potencializando a arte bonequeira e lembrando que quem brilha são eles: os bonecos!
Que venha os 30 anos!!!


Desfiles


Sol




quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Qualidade de Afeto

Foto Marcelo Alves

A gente passa um tempão da vida da gente, tentando ser o que não somos, fazendo o que não queremos e nos contentando com relacionamentos medíocres para encher as redes sociais de fotinhos "somos felizes, morram de inveja", fingimos orgasmos, dizemos "sim" quando na verdade o "não" quase explode na nossa garganta, comemoramos Natal e Ano Novo porque todos comemoram, o ciclo de vida mais hipócrita da face da Terra. Ah quem goste, eu não julgo ninguém se realmente, eu disse realmente, são felizes assim...
Eu sempre fui mais ousada, desde a infância! Eu era a menina que brincava e queria ser feiticeira, escrevia textos na escola e passava para os colegas analisarem (não professores) pois me importava com a plateia de verdade. Comecei cedo a fazer teatro (não para pintar o cabelo de rosa ou para extravasar minha opção sexual), porque amava a Arte mesmo! Quebrei muitos padrões, não casei na Igreja como meu pai queria e sempre escutei dele ("tu nunca vai realizar meu sonho de entrar na Igreja de braço dado contigo") casar assim, só no teatro! Não cursei administração, me separei três vezes quando o amor chegou ao fim, mesmo com filhas pequenas que estão super bem criadas e felizes, porque a mãe sempre foi verdadeira, faz o que fala, não finge... aí entra a qualidade do afeto.
O melhor de mim, guardo pra mim hoje! Meu melhor, minhas loucuras, minhas melhores ideias, minhas músicas repetidas que adoro dançar, estão todas na minha cabeça, cheia de grandes ideias...
Lembro cada um dos meus fracassos, talvez o melhor deles, uma crítica teatral escrita para um espetáculo meu em 2010 falando muito mal de mim e do meu trabalho. Na época chorei, mas lembro de ter sido elegante e escrito ao crítico agradecendo. Sempre fui humilde, nesse sentido. Continuo com o trabalho até hoje, mudei, testei, modifiquei e sempre que releio o que ele escreveu, dou risada e digo "putz, ele tinha razão em um monte de coisas".  Nós escolhemos quem nos destroe, nós escolhemos o que fazer com tudo de ruim que nos acontece. É aí que entra a qualidade do nosso afeto, que deve ser puro e transcendente com nós mesmos.
A condição humana, tão discutida por grandes autores teatrais, só aflorou mais e piorou. Se Beckett estivesse vivo hoje, morreria mesmo esperando "Godot", Shakespeare estaria em depressão, Tenessee estaria internado há tempos e por aí vai...nossa condição só piora porque a cada dia estamos preocupados em provar tanta coisa idiota aos outros e nos distanciamos de nós mesmos...
Até quando conseguimos mentir para nós mesmos? Até vir o infarto, a depressão, o suicídio? A tarja preta, o isolamento? Pecamos por arrogância, por um amontoado de medos idiotas, por desacatarnos a nossa integridade e nossa autoestima! Que vergonha de nós mesmos, eim?! Onde foi que nos perdemos? Onde foi que deixamos a rede social pontuar nossas vidas e esquecemos de simplesmente viver a vida (sou usuária das redes, estou aprendendo a usá-las somente para trabalho)...
Eu comecei há muito tempo a me despir das minhas angústias, dos meus medos, tenho coragem de dizer que amo, que quero beijar, que não gosto, que não senti nada, e não tem problema em falar a verdade quando usamos o "tom certo" sem querer agredir ninguém...
Sou mais eu, sou minha totalidade, aprendi a me tratar melhor, a ser mais querida primeiro comigo... Sou como sou, convivo comigo, me conheço melhor do que ninguém, então ninguém além de mim, sabe da minha história, dos meus tropeços, dos meus recomeços, das minhas vitórias... E todo amor que houver nessa vida, será pra mim com muita qualidade de afeto porque eu mereço, você merece, nós merecemos ser felizes, mas temos que ousar a fazer isso primeiro sozinhos!
Não tenha medo de ser quem é! Você não tem que agradar ninguém baby, não seja escravo da opinião alheia...
Eu parei com a mania de me apaixonar por quem não gosta de mim, decidi me apaixonar pela vida, pelo meu trabalho cada vez mais, pelas minhas filhas, pela minha casa, pelos meus amigos...e quem tem tanto amor para doar, não pode perder tempo esperando migalhas...


sábado, 26 de agosto de 2017

Sobre a estreia de "Cabeças Autônomas"

Sérgio Azevedo Fotos

Eu acredito na Arte que inquieta, que questiona, que possibilita uma ideia de nova realidade. Acredito na Arte que transmuta, que sensibiliza que emociona...
"Cabeças Autônomas" é tudo isso! É sem dúvida a direção mais importante da minha história de 23 anos de teatro... é um grito de guerra sobre ter coragem para tocar nas minhas feridas, das minhas atrizes e da plateia. É sobre mulheres, amor, vida e liberdade.
Fiz uma pré estreia somente com homens não ligados a teatro no dia 23 de agosto, que foi simplesmente incrível, tantas verdades sentidas, depoimentos emocionados e empatia. Muita empatia porque essa revolução e evolução de consciência, como um homem da plateia falou, é nossa, de todos nós.
Então veio a primeira apresentação da estreia. Plateia calorosa, receptiva e em prantos participando do debate. Um debate que foi uma injeção de ânimo e amor pelo que fazemos, por ter a certeza que tudo que idealizamos estava ali, sendo dito e chorado pela plateia! O sagrado, o feminino, as dores e amores do ser mulher...sem agredir os homens em momento algum.
Compartilhamos de tantas frases lindas e comentários que guardarei muito tempo na minha caixinha de memória. Pais, filhos, mães, mulheres... dialogamos! Fruímos e entramos em catarse...
Uma catarse libertadora! Uma reflexão forte sobre nosso papel em meio a esse caos diário... Nos abraçamos e choramos juntos!
Nunca, em 23 anos vi tanta gente chorando e falando coisas tão lindas sobre um trabalho. E eu não estava em festival, em outra cidade, ou no RJ e SP...eu estava em Canela, na minha cidadezinha cheia de graça, com minhas atrizes maravilhosas ouvindo que "estamos prontas para o mundo", que "Canela entrou para o cenário de qualidade de espetáculos nacional" entre outras coisas. Foi lindo, sublime de encher os olhos e a alma de amor... amor ao meu teatro.
Recebi diversos depoimentos de pessoas emocionadas que escreveram, enviaram áudios, me abraçaram... minhas atrizes em catarse, escrevendo o que sentiram e vibrando juntas no mais lindo amor, falando de transformação e cura.
Para quem não assistiu, teremos mais uma apresentação amanhã, dia 27/8 às 21h no Teatro Casa de Pedra em Canela. Vá sentir o que estamos sentindo, sem pré conceitos. Só vai de coração aberto!
Eu estou profundamente feliz e emocionada com o resultado que minha equipe de produção, elenco, apoiadores e técnicos (amigos de longa data) conseguimos! Todos os fragmentos da minha verdade e a verdade de tantas outras estão ali... nesse trabalho.
Dói mexer na ferida, mas é libertador quando nos curamos de nós mesmos! 
Cheguei em casa e chorei profundamente, quase desidratei num misto de alegria, amor e alívio... nasceu meu novo filho e o processo foi, é e será transformador.
Só sei fazer arte, e pretendo fazê-la com muita seriedade, pesquisa, ousadia e coragem sendo coerente com o que falo. Esse é o meu protesto, por liberdade e reflexão!





sábado, 22 de julho de 2017

A despedida da "etérea" Clarice Ziegelmann



O ano era 1996 e eu subia ao palco ao lado da minha então professora e diretora Clarice Ziegelmann que eu já conhecia  desde 1995. Era uma responsabilidade imensa atuar ao lado dela, eu uma "fedelha" do teatro, que mal começava a escrever e atuar há dois anos... o texto era meu, "O Etéreo", éramos mãe e filha, mortas, ligadas pelo nosso cordão umbilical, numa espécie de "limbo", acertando as contas... (sim, eu já era dramática naquela época e não sei porque cargas d´agua adorava falar de morte, meu primeiro monólogo foi "O Monólogo de Um Velório").
Ontem, 21 de julho, perto do meio dia quando recebi a notícia que me deu um soco no estômago, de um infarto fulminante justamente nela, começou a vir uma história na minha cabeça...na minha e de muitos da cidade de Canela e Rio Grande, acredito...
Para quem não conhece, ou só ouviu falar, Clarice Ziegelmann era atriz, diretora, musicista, ativista cultural (trabalhou em vários órgãos culturais em Canela e região), criadora e diretora da Cia Palco Meu em Canela, da qual eu e muitos outros atores passaram... mulher, mãe, avó, batalhadora incansável, gênio difícil às vezes, mas nunca intransigente, sempre de unhas azuis compridas (amava azul), cartomante de primeira (já fui várias vezes ver tarot com ela), adorava um café assim como eu, e não tem como falar em teatro em Canela sem falar nela, na Clarice, na vó da Valetina (que foi minha aluna esse ano), na mãe da Ingrid que eu brincava de barbie quando ia nas jantas na casa da Clarice e ela era pequena...
Clarice mexeu com a classe artística, sobretudo ontem, quando nos deixou rapidamente, sem nem sequer ter tempo de respirar. Meia noite estávamos lá, atores de todas as idades, diretores, amigos, o olhar de espanto, trocas de abraços, poucas palavras e muitas reflexões...
Como nessas horas tiramos tempo e nos encontramos? Como nessas horas deixamos picuinhas de lado e simplesmente nos apoiamos...assim devia ser sempre... mas sabemos que não é... a vida é corrida e somos produto dela, querendo ou não...
Entre choro e abraços, vinham boas lembranças, boas histórias, as últimas mensagens trocadas. Ela ia apresentar seus textos numa leitura dramatizada semana que vem e estava empolgadíssima, havíamos falado e ela disse: "te espero lá, não aceito recusas..."
Não escrevo esse texto somente porque ela "voltou para a casa", sempre mantivemos contato, e o projeto 3x4 Teatro em Canela nos reaproximou... no início do ano quando a neta fez o intensivo infantil ela, daquele "jeitão" dela, me disse: "só deixei ela fazer porque era contigo, gosto muito do teu trabalho..." Quem conheceu a Clarice sabia que ela não era mulher de recados, era clara, precisa, honesta e verdadeira, falando o que tinha de falar, doesse a quem doesse ... Já havia me visitado para conhecer Helena, sempre que podia ia assistir minhas peças, eu sempre convidava ela porque sabia que se não gostasse ou gostasse, as críticas eram honestas... Clarice não era "puxa-saca" de ninguém (isso herdei dela)...
Simplificando, decidi escrever para homenageá-la do meu jeito.  A classe teatral está de luto em Canela e sentiu muito essa perda... muito mesmo... é um pedacinho de nós que se vai, os ensinamentos que ficam... Em nome de todos os artistas canelenses que por ti passaram, seja em escolas, na Cia Palco Meu, oficinas, GRATIDÃO!!! Honraste a palavra TEATRO e soube nos colocar no caminho do amor a Arte com maestria. Aprendemos muito contigo. Te respeitamos! Te honramos! Seguiremos nossos caminhos, mas não esqueceremos que em algum momento fizeste parte das nossas vidas, da nossas histórias nesses palcos de rua, de festivais, de escolas, de eventos... 
E como em 1996, cortamos nosso "cordão umbilical" agora "profe", você passou para outro estágio rapidamente, e tenho certeza que conscientemente, pois sempre foste muito espiritualizada... Descanse! Apesar que se bem te conheço, já deve estar procurando "palcos aí em cima" para agitar algo, não és do tipo que fica parada... vais gostar do céu, ele é azul, tua cor favorita!
Quanto a tua filha e tua neta, segue tranquila, tem muita gente aqui para apoiá-las, ajudá-las, além da família, a tua família teatral, que ontem se fez presente, não vai te decepcionar...
Seguimos! Firmes e fortes, com coragem para cumprir nosso destino! 
Tuas últimas palavras pra mim esses dias foram: "Lisi, ando com muita dor na coluna e não consigo assistir tuas coisas, mas parabéns pelas tuas conquistas e tua arte concreta!!". Sabes que tem dedo nisso tudo né??? Na verdade eu, e muitos outros é que te agradecemos, por tudo... Valeu Clarice!!!





quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sobre alunos, golfinhos e o teatro...



Caminhando nas ruas desconhecidas de Lima no Peru em 2010, entrei em um sebo e queria muito comprar livros de autores peruanos, me deparo com "El Delfín - la Historia de un soñador"  de Sergio Bambarén, que conta a história de um golfinho, Daniel. Um golfinho que tinha muito amor pelo mar e acabava esquecendo sua rotina de pescador imposta por seus companheiros. Sozinho, escutava apenas uma misteriosa voz que o fazia seguir seus ideais na busca do que o levaria ao outro lado do mar, enfrentando as ondas perigosas e o desconhecido. 
A história do golfinho revela que todo ser que busca seu próprio caminho e bem espiritual, tem um caminho a percorrer sozinho, deixando o medo e esquecendo das críticas daqueles que não acreditam mais em sonhos... Eu sonhei muito, sonho todos os dias, enfrentei muita crítica, deixei pessoas e amigos que hoje nem são tão amigo assim, para seguir meu sonho, um lugar onde o teatro pudesse ser uma ferramenta de construção num ser humano melhor.
Na noite do dia 2 de julho, fizemos a primeira mostra do Estúdio de Pesquisa, onde quase 50 alunos entre 5 e 60 anos em apenas quatro meses de aulas, mostraram sua Arte, mostraram como a Arte os encontrou, e segundos antes de abrir as portas para a plateia que lotou o teatro Casa de Pedra em Canela, não pude deixar de mencionar a história do golfinho, extremamente emocionada, olhei aquelas pessoas todas de mãos dadas, e comentei que muitas vezes quando pensei em "abandonar o barco", haviam eles, meus "golfinhos sonhadores" que me lembravam que não podia desistir, que havia muito mar para navegar...
E seguimos sonhando, assim como Daniel, que muitas vezes pensou em desistir cansado de atravessar o mar sozinho, acabava por recordar quem era e o sonho que tinha...
Os alunos brilharam na noite de domingo, iniciantes, outros mais experientes, clowns, crianças, trabalhos solo, Nelson Rodrigues... foram duas horas e meia de teatro (sim, 2h30min). Cansativo para uns e um deleite para amantes de teatro. Temos muitos ajustes, muito trabalho pela frente, mas a certeza de que estamos no caminho certo! 
Generosidade, energia, cumplicidade, amor ao que se faz! Foi lindo de ver! Agradecimentos especiais aos professores do estúdio: Ligia Fagundes, Rodrigo Bach, Sérgio Azevedo, Emiliano Marzano, Guga Freitas, Marcelo Wasem. Ao apoio do Giovane Nunes (meu queridinho impecável), ao Dudu e Polenta da àrea eventos (sempre presentes nas horas doidas), aos amigos do estúdio.
Encerro meu texto com a parte final do livro do golfinho quando ele segue escutando sua consciência que lhe diz:

"Chega um momento na vida que não há mais o que fazer, a não ser seguir seu próprio caminho..."

Estou seguindo o meu através do Estúdio, meu propósito de vida! Me encontrei!

Sergio Azevedo Fotos

domingo, 26 de março de 2017

As feridas que o teatro cura...

Sérgio Azevedo Fotos
Este fim de semana me reuni com as pessoas que fizeram o intensivo de verão em janeiro " O Ator e Sua Verdade", eram 17 pessoas, faltaram 7 e isso me incomodou um pouco no início, porque acho que precisamos ser comprometidos com nossa arte sim ou sim, e não só da boca para a fora, mas enfim, a proposta era nos reunirmos, após o grupo ser dividido e cada um ler uma obra de Peter Brook ("A Porta Aberta" e "Espaço Vazio"), a ideia era um seminário de discussões, depois vídeos e a prática dos exercícios. 
Voltamos a nos encontrar no mágico Solar Azul do Galo Cantante, da artista plástica Kira Luá, e em pouco tempo muito se viu, sentiu e se debateu. O teatro é uma dessas ferramentas de auto conhecimento completamente desacreditada, falo isso porque, a princípio ninguém leva muito a sério... as pessoas o costumam procurar para passatempo, para "perder a vergonha", para desestressar ou simplesmente " ocupar seu tempo vazio." Falo da minha realidade Serra Gaúcha, claro, e sempre há excessões. Mas são bem pouco que são coerentes com o que dizem... todos "amam" o teatro, mas o trocam por alguma festa, ou janta de amigos num piscar de olhos e se facilitar, te deixam na mão por bobagens... Mas não vou entrar nessa questão, porque tenho aprendido duramente que cada um dá o que tem, então não posso cobrar de quem não tem maturidade ainda, para me dar comprometimento. 
Voltamos ao encontro! Nesse encontro, rápido mas preciso pude novamente constatar o quanto o teatro cura (e não acho que ele seja terapêutico), ele cura porque trabalha emoção e é Arte! Mas para curar é preciso querer ser curado e mergulhar fundo nessa emoção, nas suas impossibilidades, nos seus medos, nas suas dúvidas, e isso dói. Partimos de Peter Brook mas improvisamos não Shakespeare em nosso "tapete", improvisamos sobre nós mesmos e toda nossa gama de problemas...
Mergulhamos e voltamos (porque mais importante que mergulhar é saber voltar e colocar a cabeça fora do mar de emoções internas). Rimos, choramos, estudamos, discutimos, debatemos e constatamos tanta coisa... foi intenso!
Cenas fortes, monólogos, personagens, criador e criatura...músicos, atores, cantores, amantes do teatro... Foi quem realmente "precisava" ir. 


Intensivo 2017

"Há espaço para a discussão, para a pesquisa, para o estudo da história e de documentos, assim como há espaço para berrar, uivar e rolar pelo chão. Há, também, espaço para o relaxamento, para a informalidade, para a camaradagem, mas também há o tempo do silêncio e da disciplina e da concentração intensa." Peter Brook 

E a pergunta que sempre faço: porque você faz teatro? O que te moveu até aqui? (em uma palavra)

Facilitadora: Lisiane Berti

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