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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Da polêmica crítica à Paixão de Cristo em Canela

Depois de ouvir e ler comentários em redes sociais sobre a polêmica crítica de um “babaca vindo de fora” (termo esse repetido várias vezes nas calorosas discussões) não poderia deixar de dar minha opinião, mesmo que não solicitada, então decidi escrever no meu blog onde sempre escrevo e divago pelo único prazer que me dá a arte da escrita.
Vamos analisar a situação observando-a de fora: de um lado um ator e diretor profissional de outro país com formação teatral que escreveu uma opinião crítica (sem ninguém ter solicitado), do outro vários atores profissionais também com formação teatral, amadores (não gosto deste termo mas vou usá-lo não pejorativamente) e pessoas da comunidade envolvidas num dos eventos que para mim sempre foi um dos melhores de participar, A Paixão de Cristo, onde sabemos das dificuldades que o evento encontra para ser realizado e onde sempre temos que fazer “milagres” com pouca verba e muito esforço. É assim há anos, independente de partidos políticos.
Mas para falarmos da situação e toda a proporção que ela tomou nos últimos dias, vamos voltar um pouco no tempo e pensarmos na questão da crítica em si... É verdade que a tradição da crítica teatral brasileira não é especialmente lisonjeira: com algumas exceções, entre os quais escritores do gabarito de um Arthur Azevedo ou de um Machado de Assis, que chegaram a ser críticos atuantes, no seu conjunto ela assumiu, no passado, uma linha paternalista e acomodada que pouco podia contribuir para a abertura de uma discussão fértil em torno do teatro. No Rio em 1963, Bárbara Heliodora, apoiada numa formação erudita e numa inovadora contundência irônica, enfiava saudáveis alfinetadas em muitos balões excessivamente inflados; Paulo Francis levava a contundência a extremos ainda bem mais radicais, ao mesmo tempo em que abria em torno do teatro, pela primeira vez, uma discussão eminentemente política, sem prejuízo da pertinência das suas colocações estéticas; profissionais inegavelmente conhecedores do assunto e a ele profundamente dedicados, como Gustavo Dória ou Henrique Oscar, ajudavam a iniciar o público em muito segredos do teatro, e estimulavam o seu interesse. O teatro brasileiro, que queimava etapas na sua evolução, era diariamente discutido nos jornais, que lhe abriam generoso espaço, com uma vitalidade e um profissionalismo à altura do seu progresso.
A partir de 1964, e com maior nitidez a partir de 1968, a crítica viveu outro capítulo significativo, embora num contexto diametralmente oposto ao anterior: num momento em que o teatro se via esmagado pela mais brutal ação da censura e de outras formas de repressão de toda a sua História, a crítica – embora ela também, como todo jornalismo, sujeita a pressões impiedosas – assumiu bravamente a defesa da liberdade de expressão do teatro, e cumpriu um papel significativo neste campo de batalha. 
Problemática, polêmica, ameaçada de falência e de estar à margem do seu próprio universo de atuação, ela não se cala. Sob olhares desconfiados por todos os lados ela permanece, há séculos, como pedra, sobrevivendo aos que não lhe querem. Maldita, é infalível e independente. Se não há mais lugar para ela aqui, encontra acolhimento ali, transita, transmuda, se move. A crítica não está falida, não está morta e pertence mais ao mundo da arte do que muitos eventos que se autodenominam artísticos. Ela está apenas em crise. Bom para ela: este é o seu habitat natural. Em 2008 quando fazia minha primeira temporada com a peça “A Encalhada” em Porto Alegre, um crítico foi assisti-la e publicou num blog (que existe até hoje) as piores coisas que eu podia ler sobre minha peça. Entrei em choque! Reli várias vezes, pesquisei quem era o crítico e publiquei no seu blog, onde havia a crítica da minha peça e toda a “elite cultural de Porto Alegre” poderia ler, que agradecia sua crítica e ia pensar a respeito.Ele agradeceu minha elegância e até hoje nos comunicamos. A crítica pode ser acessada,  pois o blog dele permanece ativo. Depois de 6 anos fazendo a peça olho para trás e vejo que realmente tinha várias coisas a melhorar, mas continuo discordando de outros pontos.
Voltamos a polêmica da crítica publicado no face do “cidadão de fora” que foi compartilhada em outro face com um cabeçalho maldoso justamente para gerar polêmica. Não sei se todos entenderam o que leram, eu honestamente tive de ler duas vezes a opinião postada em espanhol, porque continha várias metáforas, e cá para nós, podia ser postada em russo que ia gerar a mesma polêmica, pois a questão não é o idioma, é outro que logo falaremos. O que se desenrolou dali foi uma série de comentários que se analisarmos friamente, parece de pessoas que foram lendo os comentários dos outros e “seguindo o fluxo” de xingamentos, desabafos magoados, raiva coletiva entre tantos (alguns posteriormente apagados) com ressalva a diretora e produtora do espetáculo que respondeu com toda a classe, dando uma opinião eloqüente, e quem a conhece sabe que ela é realmente assim.
Não vou defender lados, nem dar minha opinião sobre o espetáculo, quem me conhece sabe que não costumo fazer isso em rede social e quando faço geralmente é falando com as pessoas que pedem minha opinião e realmente tem interesse nela, o que não é o caso. O que venho questionar aqui é a proporção que isso tomou em segundos e virou o assunto do momento na nossa pacata Canela (que de pacata não tem nada) e a argumentação utilizada para discutir o assunto que me deixou muito triste. Poxa, porque essa “união” não acontece quando temos que formar nosso conselho de cultura, quando precisamos reivindicar melhores condições ou simplesmente participar de um manifesto em homenagem ao Dia do Teatro, onde nem a metade dessa mesma massa cultural sequer apareceu?
O cidadão em questão foi trazido por mim para a maratona de monólogos, onde na ocasião foi jurado, juntamente com outras duas pessoas, com o único propósito de analisar e criticar para aperfeiçoar os trabalhos apresentados. A mesma pessoa também realizou oficinas na nossa cidade no mesmo evento e posteriormente em outros espaços, onde muitos que estão no elenco da Paixão de Cristo tiveram a oportunidade de conhecê-lo, e sabem como ele é e como se posiciona, mesmo quando não é chamado. A mesma pessoa dirigiu dois trabalhos na minha Cia como “Fantoches”, onde no final nos propusemos a abrir bate papo ao público para que criticassem nosso trabalho. A mesma pessoa criticou duramente outro monólogo meu, onde na ocasião além dele, haviam convidados, os quais respeito a opinião para irem assistir e criticar novamente meu trabalho. Deixo claro que divergimos em opiniões principalmente quando o assunto é Stanislavisky e que não sou o tipo de pessoa que “segue” idéias sem questionar e estudar profundamente o assunto.
O espetáculo em questão é dirigido por duas pessoas também conhecidas por mim, um formado pela Escola de Teatro de Pelotas e a outra com um vasto currículo de atividades culturais na região, inclusive realizando trabalhos pela minha Cia. No elenco, alunos, ex alunos, colegas, amigos de longa data, pessoas que ensaiaram muitos dias no frio Parque do Lago, buscando dar o seu melhor, junto com toda a equipe que também já trabalhou comigo em diversos outros eventos. Respeito ambos os lados, pelas suas trajetórias, pelos seus trabalhos, pelas suas perspectivas de fazer e se envolver com arte. Sempre procuro tirar algum ponto positivo de tudo, e tenho tentado nos últimos dias pensar o que preciso aprender com tudo isso. Questões para pensar:
1) Será que todas as pessoas que vem de fora com algum conhecimento, querem “tirar nosso lugar” e “impor” o que sabem quando dão uma opinião imparcial (imparcial porque justamente é de fora)? Vocês realmente acreditam nisso? Somos tão medíocres assim? Me incluo no “somos” porque já recebi crítica de “gente de fora” não só em Canela mas em diversos festivais e eventos que participei, em outros países em que fui e eu era a “gente de fora” que ia mostrar trabalho e dar a cara a tapa. Na verdade quem trabalha com arte sempre dá sua cara a tapa, mas na verdade nem sempre estamos preparados para sentir a dor do tapa, e aqui mais uma vez me incluo, porque sempre sou alvo de críticas. Recebemos duras críticas no espetáculo “Simplesmente Natal” e o que e de gente daqui mesmo, da cidade. E isso não foi o fim, talvez o começo...
2) O que gerou tamanha polêmica foi realmente a opinião (com ar arrogante mas com argumento teatral) de um “babaca de fora” ou porque a pessoa em questão fez alguns trabalhos comigo? Aqui sem ego, porque não sou melhor do que ninguém!
Enfim, poderia escrever durante horas porque argumentos e experiência no ramo não me faltam assim como muitos do assunto em questão, justamente nesses eventos que aprendi muito sobre produção, coordenação, trabalho em equipe, nas épocas em que trabalhei com Elias da Rosa, Paulo André, Tiago Melo, Jerry e Lucia entre tantos outros que não vou esquecer.
Honestamente, se o cidadão é um “babaca de fora”, não dêem foco, tensão gera foco já dizia Peter Brooke, sigamos com nossos trabalhos, cada um sabe onde aperta seu sapato, cada um sabe da sua história e seus valores. Não vai ser a opinião de um “forasteiro” ou de qualquer pessoa que vai diminuir quem somos, sempre digo as pessoas que trabalham comigo que em primeiro lugar faço teatro para mim, para minha realização, depois vem o público que sempre deve ser levado em conta e pelo que li e vi nos “posts” o espetáculo emocionou, o elenco estava satisfeito com sua atuação, a direção cumpriu com seu objetivo. Bingo! É isso que vale! Não precisamos que venham nos dizer quem somos ou como fazemos, mas precisamos sim aprender a não levar a crítica seja de quem for, tão pessoalmente e nos ofendermos e nos magoarmos...isso só nos faz mal! Imagina se a Bárbara Heliodoro viesse assistir nossos espetáculos em Canela? Infartaríamos? Ou quem sabe aproveitaríamos para um caloroso bate papo maduro? Eu ia sentar horas do lado dessa mulher com um gravadorzinho..
Da minha parte continuo fazendo meu trabalho, desenvolvendo minhas idéias, buscando, levando “tapas na cara”, recomeçando, redescobrindo, amadurecendo assim como muitos por aqui. Ainda acho que temos que deixar picuinhas de lado e focarmos no que realmente interessa, no que realmente possa agregar ao nosso trabalho. O que agrega sempre nos fortalece, o que não serve, filtramos, diluímos, DELETAMOS!
De qualquer forma, seria difícil não concluir que a crítica é característica indissociável do pensamento do homem moderno. A atitude crítica é uma forma de estar no mundo que é própria ao nosso tempo. Enquanto estivermos por aqui, ela também vai estar. E sempre que houver algum tipo de soberania em jogo, ela vai ser um problema. E se o que estiver em jogo for a sabedoria/humildade, ela, a crítica, será sempre um coeficiente de construção, afinal para ser um bom artista, é preciso ser um bom ser humano já dizia o diretor Rodrigo Cadorin, que sempre faço questão de que vá assistir e criticar os meus trabalhos, isso aplica-se também aos fotógrafos, que em nossa cidade mostram-se fomentadores de opiniões, que prevaleçam sempre as positivas/construtivas porque essas sim nos elevam o espírito e nos tornam seres humanos melhores, afinal bons seres humanos são também bons profissionais,  e a recíproca também procede.
Me coloco à inteira disposição de ambas as partes da polêmica para quaisquer esclarecimentos (pessoalmente), porque esta será minha única publicação na rede em relação a este assunto que ramificou de uma forma absurda. Afinal tenho visto que cada um escreve o que quer,  ouve o que não quer e interpreta da forma que melhor lhe convém. Uma pena tudo isso!
Lisiane Berti



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