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domingo, 19 de junho de 2016

Da dualidade de Yerma a interpretação visceral da Rita Reis

Rita Reis em Yerma

Eu não sou crítica de teatro, tampouco tenho a pretensão de ser e antes de escrever pedi a atriz e ao diretor do Grupo Sátiras (Jonatas Brasil) se podia escrever. Eles me autorizaram! Recentemente fui assistir Yerma do Lorca no Estúdio de Bonecos em Canela com a atuação de Rita Reis e a direção do Jonatas.
Federico Garcia Lorca (1898 - 1936), poeta e dramaturgo, é o escritor espanhol mais famoso do século XX, talvez o seu melhor artista. Foi assassinado durante os primeiros dias da guerra Civil Espanhola, jogado em uma vala comum, e de vítima se transformou em mártir, depois de tantos anos após o crime, seu prestígio e sua obra são universais. Conheço toda a obra dele, mas Yerma sempre foi um dos meus textos preferidos. 
Yerma é uma obra literária, uma tragédia situada em uma  época onde a família era o mais importante em uma  sociedade conservadora e onde o homem só era homem se mantivesse sua família com trabalho e onde a mulher tinha que cuidar da casa, os afazeres domésticos e o mais importante, cuidava dos filhos.  A palavra "yerma" significa infértil, estéril, e a obra do dramaturgo gira em torno desta mulher, Yerma que sonha em ter um filho e não consegue. Sofrimento, desespero, passa-se o tempo e Yerma dá-se conta que quem não pode ter filho é seu marido Juan e acaba o estrangulando, estrangulando também a única possibilidade ter seu tão sonhado filho.
Porque dualidade? Porque ela viveu entre o coração e a honra, lutou frente aos seus sentimentos e diferente de uma Norma da Casa de Bonecas de Ibsen que larga tudo e começa uma nova vida, Yerma reluta e sucumbe ao desejo de ter o filho do seu marido, custe o que custar. Jamais ela trairia Juan, jamais ela desapontaria sua família ou ficaria mal falada...
Então assisto Yerma encenada pela visceral Rita, e não vi a Rita. Vi uma Yerma sofrida, forte, apaixonada pela ideia de ser mãe a atormentada...A vivência da Rita deu força a Yerma. Uma belíssima interpretação de uma menina que se entrega de corpo e alma ao que faz como poucas. 
Não assistiu ainda? Então vai, aproveita, vale a pena! A direção do Jonatas é bastante limpa, cheia de detalhes, num cenário simples e funcional. A trilha sonora é dos poemas do próprio Lorca e você tem de prestar bem atenção ao espanhol...sofrido...doloroso.
E como Yerma diz: "Eu sou um campo seco, onde cabem mil bois..." 
Detalhes aos pés descalços, pois o contato com a terra era um sinal de fertilidade.
Parabéns Grupo Sátiras pela coragem e ousadia de montar Lorca. E sabe porque ele é clássico? Porque os clássicos são muito simples e falam das coisas simples da vida que ninguém tem coragem de falar...
Evoé!!

Sergio Azevedo Fotos


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