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domingo, 3 de julho de 2016

O preço alto de ser honesto

Honestidade não é uma característica, é uma escolha em que você decide ser ou não! Claro, depende de educação e de uma série de outros fatores, mas sobretudo somos nós que definimos como agir quando ninguém está olhando. 
Cá para nós, em tempos medíocres e insanos, está na moda ser "honesto", ser "caridoso", mas essa moda só funciona se tiver foto na coluna social do jornal, ou comentários calorosos nas redes sociais do quanto você é "honesto". Não é bem essa honestidade que me interessa. A forma como nos comportamos quando ninguém está realmente olhando é uma boa maneira de identificarmos até quanto somos honestos, como tratamos o garçom, a faxineira, o porteiro quando não é "documentado" ou "compartilhado".
Mas porque sermos honestos num contexto onde os desonestos e mentirosos ganham a mídia e nada acontece, e eles continuam nos postos mais altos e vão muito bem, "obrigado". Mas pior que eles, são as pessoas próximas, que abusam da nossa paciência, abusam da nossa honestidade e boa vontade e nos "puxam o tapete", uma, duas, três vezes...quantas forem necessárias.
Eu decidi há muitos anos atrás trabalhar com arte, dignamente e honestamente. Nesses anos procuro sempre ser coerente entre o agir e o fazer, não entrei em partidos políticos, mesmo ouvindo que nós artistas somos seres políticos sim e precisamos nos inteirar de tudo. Desculpem, mas não concordo, faço arte, não faço política artística e tem uma grande diferença. Essa escolha de anos por vezes me faz refletir tristemente sobre se foi mesmo certo. Ando sobrevivendo de arte e não vivendo. Quanto mais sou correta e íntegra, mas passo trabalho, mas corro, menos tempo tenho, anos sem férias, trabalho em finais de semana e tenho que colocar no final do mês a prioridade das contas em cheque.
Malabarismos a parte, ando cansada! Cansada desse jogo podre de interesses, onde um telefonema é dado e "fulano" de tal está no evento, onde um orçamento é alterado e alguém que nem trabalhou ou passou horas acordado criando como eu faço, ganha três vezes mais que eu. Pior, quando roubam a sua ideia (na maior cara dura), mudam o nome e recebem em cima das suas horas e dias de projetos.
É certo? Não, não é! E seria bem mais fácil me deixar corromper e entrar no "jogo do sistema", o joguinho podre onde alguém sempre tira vantagem de tudo e de todos em qualquer setor ou época.
Eu já tive muitas oportunidades de virar "oportunista", trabalhei com muita gente influente e ainda trabalho e sim, podia "abusar" disso , mas há algo dentro de mim que fala mais forte e não deixa. 

Lembro que quando era criança, fui num barzinho comprar coisas para minha mãe e a moça saiu e eu vi uma caixa com 5 chicletes em cima do balcão, peguei um escondido. Ela voltou e contou um por um dentro da caixa, fiquei roxa e disse que havia pego mas ia pagar. Nunca mais! Nunca mais! Lição aprendida!
Minha vó sempre dizia que não podemos roubar nenhum botão sequer, que sempre alguém pode estar nos testando sem a gente saber... Na adolescência, na frente de uma loja encontrei uma carteira cheia de dólares, não pensei duas vezes, entrei e deixei no caixa (estava sem grana, seria convencional pegar um pouco, mas não podia pois um leão dentro de mim sinalizava "é errado"). O tempo passou, o leão só cresceu e a honestidade é mais forte do que nunca.
E não, não vou entrar no jogo para satisfazer opinião alheia, atraso contas, trabalho 24 horas se for preciso, mas não me rendo, minha arte é utópica, tem alicerce, tem consistência, eu sei o que consigo através dela. Uma ferramenta poderosa para quem sabe utilizá-la com o gatilho apontado para o bem.
Sigo assim, minha consciência é tranquila (diferente de muitos que conheço, inclusive os que agiram de má fé comigo). Liberdade...
Liberdade de ir, vir, explanar opiniões, liberdade para ouvir ou não, liberdade para dizer NÃO, como é bom dizer não sem precisar dar tapinhas nas costas. Provavelmente meus projetos demorem bem mais para serem aprovados (não conheço nenhuma "laranja"), meu círculo de amigos é bem mais reduzido, (não faço jantares com segundas intenções), tento primar pela qualidade sim, erro, erro muito na tentativa de acerto, mas sou humilde em reconhecer. Meu ego não me ultrapassa!
Verdade que às vezes me pego em momentos ruins, dizendo "não aguento mais", mas tenho fé! E acredito de verdade que tanto trabalho e dedicação por trilhar um caminho honesto tem sim um resultado positivo! O meu chega junto com abraço de aluno, com pessoas que dizem "sou fã do teu trabalho", com alunos que me escrevem na madrugada me dizendo o quanto fiz diferença na vida deles...Isso me basta!
Sou simples! Honestidade é simples! Basta você escolher...e por falar em escolhas, o que você tem escolhido ultimamente?

domingo, 26 de junho de 2016

NOVA TEMPORADA DO AUTO DA BARCA DO INFERNO



NOVA TEMPORADA “O AUTO DA BARCA DO INFERNO”
        Após a estreia e temporada de Natal em dezembro de 2015 no Grande Hotel Canela, o grupo “ A Barca” (formado pelos alunos do Curso de Teatro Grandes Autores, turma de 2015 da professora Lisiane Berti), retorna com a peça O Auto da Barca do Inferno, clássico da literatura e do teatro de Gil Vicente, desta vez em novo espaço em Canela, junto a D’arte Espaço Multicultural no mês de julho nos dias 06,13,20 e 21 de julho à 00h)

1      O Auto da Barca do Inferno
Para se compreender o "Auto da Barca do Inferno" deve-se ter em mente que essa obra foi escrita em um período da história que corresponde à transição da Idade média para a Idade Moderna. Seu autor, Gil Vicente, se enquadra justamente nesse momento de transição, ou seja, está está ligado tanto ao medievalismo quanto ao humanismo. Esse conflito faz com que Gil Vicente pense em Deus e ao mesmo tempo exalte o homem livre. O reflexo desse conflito interior é visto claramente em sua obra, pois ao mesmo tempo em que critica, de forma impiedosa, toda a sociedade de seu tempo, adotando assim uma postura moderna, ainda tem o pensamento voltado para Deus, característica típica do mundo medieval.
Escrito em 1517, o clássico da literatura retrata a sociedade portuguesa do século XVI ao mesmo tempo que possui temas atuais, com uma boa sátira à sociedade.

2   Sinopse:
O cenário desta obra é um porto onde se encontram duas barcas, uma leva ao inferno e a outra ao paraíso, uma guiada por um diabo e a outra por um anjo, ambos os comandantes aguardam os mortos, que são as almas que seguirão ao paraíso ou ao inferno. Uma sátira impiedosa de Gil Vicente, onde suas críticas não poupam ninguém - fidalgos, padres magistrados, mas também sapateiros e ladrões.Cada personagem traz, nas roupas ou nas mãos, os símbolos de seus pecados e deles não podem se desfazer; não há defesa contra as acusações do Diabo ou do Anjo.

      Ficha Técnica:

Texto: Gil Vicente (adaptação )
Direção: Lisiane Berti
Cenário: Lisiane Berti
Sonoplastia: Erick Bolt e Luan Klauss
Preparação Corporal: Luana Serrão
Figurinos: Lu Benetti e Maurício Goulart
Maquiagem: Maurício Goulart
Máscaras: Kira Luá
Iluminação: System Produções Técnicas
Produção: Giovane Nunes, Isabel Scheid, Rosane Warken e Edel Ramos
Programação Visual: Charle Oliveira
Elenco:
Anjo – Taíne Dufau
Demônio – Rita Reis
Fidalgo – Odarlan Mapelli
Onzeneiro – Rosane Warken
Sapateiro – Eduardo Rohden
Parvo – Luana Serrão
Frade – João Marcelo Trovão
Brísida Vaz – Edel Ramos
Judeu – Erick Bolt
Corregedora – Silvana Grade
Enforcada – Núbia Gallas
Cavaleiro – Giovane Nunes
Demônios – Amallia Brandolff e Giu Chiodi
Anjo – Giulia Sironi
Barqueiro – Marcelo Wasem

 I  Ingressos:
     R$ 30,00 (Aroma Literário, Empório Canela e no local)
     Você pode escolher sentar no céu ou no inferno (há somente 150 lugares)
     Mais informações e reservas de ingressos: (54) 8104.4404

Datas das apresentações:

Dias 6,13, 20 e 21 de julho no Espaço D’arte Multicultural em Canela




domingo, 19 de junho de 2016

Da dualidade de Yerma a interpretação visceral da Rita Reis

Rita Reis em Yerma

Eu não sou crítica de teatro, tampouco tenho a pretensão de ser e antes de escrever pedi a atriz e ao diretor do Grupo Sátiras (Jonatas Brasil) se podia escrever. Eles me autorizaram! Recentemente fui assistir Yerma do Lorca no Estúdio de Bonecos em Canela com a atuação de Rita Reis e a direção do Jonatas.
Federico Garcia Lorca (1898 - 1936), poeta e dramaturgo, é o escritor espanhol mais famoso do século XX, talvez o seu melhor artista. Foi assassinado durante os primeiros dias da guerra Civil Espanhola, jogado em uma vala comum, e de vítima se transformou em mártir, depois de tantos anos após o crime, seu prestígio e sua obra são universais. Conheço toda a obra dele, mas Yerma sempre foi um dos meus textos preferidos. 
Yerma é uma obra literária, uma tragédia situada em uma  época onde a família era o mais importante em uma  sociedade conservadora e onde o homem só era homem se mantivesse sua família com trabalho e onde a mulher tinha que cuidar da casa, os afazeres domésticos e o mais importante, cuidava dos filhos.  A palavra "yerma" significa infértil, estéril, e a obra do dramaturgo gira em torno desta mulher, Yerma que sonha em ter um filho e não consegue. Sofrimento, desespero, passa-se o tempo e Yerma dá-se conta que quem não pode ter filho é seu marido Juan e acaba o estrangulando, estrangulando também a única possibilidade ter seu tão sonhado filho.
Porque dualidade? Porque ela viveu entre o coração e a honra, lutou frente aos seus sentimentos e diferente de uma Norma da Casa de Bonecas de Ibsen que larga tudo e começa uma nova vida, Yerma reluta e sucumbe ao desejo de ter o filho do seu marido, custe o que custar. Jamais ela trairia Juan, jamais ela desapontaria sua família ou ficaria mal falada...
Então assisto Yerma encenada pela visceral Rita, e não vi a Rita. Vi uma Yerma sofrida, forte, apaixonada pela ideia de ser mãe a atormentada...A vivência da Rita deu força a Yerma. Uma belíssima interpretação de uma menina que se entrega de corpo e alma ao que faz como poucas. 
Não assistiu ainda? Então vai, aproveita, vale a pena! A direção do Jonatas é bastante limpa, cheia de detalhes, num cenário simples e funcional. A trilha sonora é dos poemas do próprio Lorca e você tem de prestar bem atenção ao espanhol...sofrido...doloroso.
E como Yerma diz: "Eu sou um campo seco, onde cabem mil bois..." 
Detalhes aos pés descalços, pois o contato com a terra era um sinal de fertilidade.
Parabéns Grupo Sátiras pela coragem e ousadia de montar Lorca. E sabe porque ele é clássico? Porque os clássicos são muito simples e falam das coisas simples da vida que ninguém tem coragem de falar...
Evoé!!

Sergio Azevedo Fotos


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sobre dias cinzas e o ensinamento que eles me trazem

Depois de dias ininterruptos totalmente cinzas, preparo meu chá (estou dando um tempo do café) e com os dedos gelados de frio, penso, respiro e começo a escrever. Esta semana mal tive tempo para respirar...
Dias cinzas são dias de mistura de preto e branco, dias em que não sabemos muito bem se vamos ou ficamos, dias que por si só não nos inspiram muito. Em um dia assim, saí correndo de carro para chegar no velório de uma das pessoas mais especiais para mim, minha tia, minha madrinha, minha amiga, minha conselheira...mal sabia eu que ao chegar teria de voltar pois minha filha passava mal na escola. Haja folêgo!Entrei, abracei minha prima sem dizer uma palavra, cumprimentei tios, olhei minha tia naquele caixão e logo desviei, era inacreditável demais para mim. Voltei! Dirigia rápido, ouvia música em meio uma e outra algumas lágrimas insistiam em correr...não dava para chorar agora. Força! Pego minha filha menor, 39,5 de febre, do nada e é claro que ela sentiu...ela sempre sente. Os dias cinzas se arrastaram, vários acontecimentos ligados a doenças, perdas, decepções e tudo ou quase tudo de ruim que podia chegar, chegou!
Houveram pessoas que falaram comigo que nem lembro o que disseram, eu concordava com a cabeça, mas não ouvia. Só lembro de estar totalmente presente em algumas poucas aulas de teatro e artes que dei. O resto foi cancelado! Seria bom cancelar os dias cinzas também, mas eles não se deixam dominar assim, São eles que dominam, nosso ar melancolicamente.
Noites mal dormidas, cansaço, garganta fechada, frio, mal humor...o cenário de um desastre ambiental.
Mas descobri que lido melhor com a dor do que com o amor, com o tempo a gente vai criando uma certa paridade com a forma de lidar com catástrofes, então me abalo pouco, logo me recupero. Penso sempre "ah mas isso não vai ficar assim", uma espécie de auto vingança benéfica, luto contra mim. Penso em como vou estar amanhã e trabalho para isso tornar-se real. Não me maltrato mais, a maturidade me trouxe discernimento para entender que eu sou a única responsável por tudo que me acontece. De bom e ruim. Essa semana uma parte de mim queria um abraço forte e apertado e outra parte pedia para não ser abraçada para não desmoronar na frente de pessoas que não entenderiam ou não tem nada a ver com a história. Não gosto de receber abraços só por receber, sabe aqueles abraços padronizados dados só por dar, assim como os "meus pêsames", ou "meus sentimentos" de pessoas que você nem conhece e que te estendem a mão. Sim, eu sei, são rituais. Rituais de passagem. Rituais tolos criados por nós, seres humanos. Me escondi dentro de mim e da minha dor, até que estivesse bem para sair e retornar a vida normal. Os dias cinzas começam a dar trégua, a vida não espera meu bem, ou você vai ou você é atropelado por ela. Gente lenta não tem vez. 
Eu gosto de dias cinzas e da melancolia e tristeza que eles me trazem...fui obrigada essa semana a parar...parar e ficar em casa forçosamente. E me dei conta de que há muito tempo não tirava tempo pra mim. Sempre tenho tempo para os outros e me deixo de lado. "Eu", sempre posso esperar para amanhã...
Escrevo feliz agora...escrever sempre me faz bem...sei que um ciclo bem complicado terminou essa semana e que era preciso. Era assim mesmo que devia ser. Está tudo certo. Foi doloroso, solitário...mas foi honesto!  
O cinza é neutro, é o meio termo do branco e preto e nem sempre conseguimos ser só "brancos" ou só "pretos", precisamos misturar nossas emoções e ficarmos cinzas e viver o luto interno e externo, também faz parte de nós...
O sol brilha lá fora. Quebrei o padrão, ensaiei e decidi tirar um tempo para mim... escrever foi uma das coisas...
Não vou mais perder tempo com coisas, seres e pessoas que não me acrescentam, se puder escolher, escolho autenticidade. Uma das características que sei, minha madrinha, se orgulhava de mim...

Saudades...

domingo, 8 de maio de 2016

Ser mãe é aceitar que você enlouqueceu...de amor!!

Ser mãe é para as loucas! Sempre pensei assim, e sempre disse durante muitos anos que nunca ia ser mãe. Brincava que ia ser freira (meu pai faz piada disso até hoje). Bom, aconteceu que conheci o pai da minha primeira filha e veio a Ísis. Eu tinha 25 anos e decidimos juntos que íamos ser pais...Alegria e desespero! Desafios! Eu não sabia nada de nada... não me via mãe, mas ela estava ali, crescendo dentro de mim...Gestação tranquila, parto tranquilo, bebê tranquila. (libriana!) A Ísis é tranquila até hoje! Ela veio equilibrar...energias, pensamentos e emoções. Começava o aprendizado... os surtos, as noites que qualquer som te acorda. O medo de quando se engasgava com leite, o desespero quando eu dormia e acordava louca na madrugada pensando (cadê meu bebê?) e ela estava ali, dormindo... Achei que tivesse aprendido tudo! E pensei, deu! Uma filha é de bom tamanho. Porque o aprendizado de ser mãe é constante, é para todo o sempre! Treze anos depois, a vida muda, o tempo, as pessoas e então veio Helena. Eita, outro aprendizado, agora com 38 anos vividos. Gestação tranquila, parto tranquila, porém Helena não é como a Ísis tranquila, é doida. Doida saudável, agitada e com personalidade forte. Novos aprendizados...
O que ninguém fala de ser mãe, o que não vemos nas redes sociais ou nas conversas entre amigas é que ser mãe é muito  difícil, porque cada ser é único! O que ninguém fala é que chegamos ao nosso limite do cansaço, do estresse, para fazer e dar o melhor pelos nossos filhos. A frase "mãe é mãe" devia ganhar uma página no livro dos recordes, porque tem coisas "papais" que vocês nunca vão entender ou fazer, e não por falta de vontade, porque nossos filhos foram gerados em nosso ventre, nossa ligação é diferente do que a que eles tem com vocês. É verdade que às vezes temos vontade de sair correndo e sumir, ou nos enfiarmos embaixo da mesa e gritarmos um "me esqueçam!". Mas ser mãe não é para qualquer pai, ser mãe é para quem tem coragem, força, persistência. Ser mãe é instinto! Abrir mão de tudo para proteger os seus, hoje e sempre! Ser mãe é saber que mesmo longe você está perto, é ter para onde correr, é ter para onde pedir ajuda e conselho, é ter para onde afogar-se num abraço ou desafogar-se!
Ser mãe é criar seus filhos para o mundo com todo o amor que houver nessa vida, sabendo que eles tem o livre arbítrio e podem nem reconhecer seu esforço, e está tudo certo, porque ser mãe é só ser e não "ter"e sempre entender.
Ser mãe é missão! E é preciso ter talento para ser mãe, porque muitas mulheres tem filhos, mas não são mães de verdade, outras não podem gerar filhos e são mães exemplares...uma complexidade umbilical que nem Freud explicaria.
Não "papais", não fiquem chateados, não estou falando mal de vocês, nossos filhos só existem graças ao amor que nos uniu e sim, vocês também tem papel fundamental em todo o processo e nunca, jamais por mais que tentássemos, seríamos "pais", porque somos mães e não nos cabe assumir o posto de vocês. O feminino e o masculino precisam se unificar para formar o sagrado! 
Creio que hoje, apesar de tudo e de tantas lições duras, tenho me esforçado bem e posso dizer de cabeça erguida, sim sou uma ótima mãe! Ainda há muito a aprender, porque nunca estamos aptos e prontas definitivamente, mas ser mãe desperta "ferramentas" em nós, mulheres, que nem sabíamos que possuímos e meus amigos, adquirimos uma força, interna e externa que é de dar medo em qualquer um que se atreva a tocar ou fazer mal a nossos "babys".
Minha homenagem hoje a todas as mães da terra ou do céu, do passado ou do futuro, de diversas crenças e religiões, das "antigas" ou "moderninhas", e meu sincero respeito aquelas que entendem o valor e significado da palavra "MÃE".
Lisiane Berti, 08 de maio de 2016 às 11h17 , filha mais velha na internet, filha mais nova tirando uma soneca, aproveitamos a pausa para escrever...




domingo, 20 de março de 2016

Sobre ser mãe de novo...


Há exatamente um ano atrás, eu estava hospitalizada! Calma, era por um bom motivo, cesária marcada para a chegada de Helena. Desde do dia que soube estar grávida eu sabia que devia focar em tudo sair bem e ser forte. Trabalhei até a meia noite do dia que antecedeu a chegada dela com teatro, uma semana depois já estava de volta trabalhando. Não, não queria provar nada a ninguém , só estava bem demais para ficar em casa, sem fazer nada.
Sentada com minha madrinha que me acompanha sempre em momentos cruciais, no corredor do hospital, ouvia os gritos de uma mãe em trabalho de parto. Algo meio perturbador para se ouvir tão cedo. Logo me chamaram para colocar o soro, fiquei num quarto com mais cinco mamães, elas tinham dor por causa da cesária, uma o marido tinha que ajudar a sentar e ela se contorcia de dor. Outra chorava porque tinha passado a anestesia e doía sua cabeça. Uma cena de filme de terror para alguns, eu observava e buscava ficar tranquila. Aquilo não era novidade, há 13 anos atrás eu já tinha passado por tudo aquilo e tinha me saído muito bem, obrigada! Desta vez não seria diferente!
A moça do parto normal, aquela que gritava, atrasou a minha cesária que acabou sendo feita, passava do meio dia. Sim, fiquei a manhã inteira no hospital sentada em uma cama, esperando, logo eu, que tenho pavor de esperar.
Tão logo fui chamada, anestesiada, chegou meu médico. Conhecido da outra cesária, sim, o mesmo...conversamos sobre teatro, tudo foi muito rápido e logo Helena estava em meus braços, miúda, sujinha e chorona. Fomos encaminhadas a uma sala para "descansar". Ela nos meus braços mamando e eu bem longe de descansar, minha cabeça a mil, olhava cada canto do quarto, tinha um homem ao meu lado que também descansava. Pensava em cenas de filme de terror, se ele fosse um psicopata, se levantasse...mas nada ocorreu. Passado algum tempo fomos para o quarto, dividimos ele com outras mamães e seus barulhentos bebês. Todas as mamães com seus supostos maridos, alguns jovens demais, inexperientes e um, apenas um, extremamente carinhoso e feliz. Os homens definitivamente não foram feitos para a "maternidade". O pai da Helena, por escolha minha, não estava comigo, estava e continua em outro país. Falávamos todo dia, mas sempre soube que na hora "H" seria tudo comigo, foi assim da outra vez e olha que o pai da Ísis é bem presente.
Na mesma noite já fui sozinha ao banheiro, algumas mulheres ficaram apavoradas de como eu não sentia dor e já andava sozinha. Pensava "foco queridas","a mente comanda o corpo". Uma noite sem dormir, duas...e assim foi...e é...Helena jamais me atrapalhou em nada, não parei com a  vida, ela se adaptou a minha.
Uma criança saudável, iluminada, sorridente e tranquila. Esperta! Vivemos bem, seguimos e hoje ela completa um ano...um ano em que muito aconteceu na vidinha dela e na minha...
Mudanças, provações, descobertas, e como na música do Lulu Santos "A gente vive junto, a gente se dá bem, não desejamos mal, a quase ninguém...a gente vai a luta e conhece a dor..."
Dor, luta são palavras chaves da nossa história (minha e de Helena) porém também recheadas de muito sucesso, alegria, perseverança, amor e saúde.
Helena trouxe o melhor de mim, um melhor que há 13 anos atrás,  a Ìsis, com sua chegada, já havia começado. Sigo, eu, meu teatro, minhas meninas...seguimos muito bem, diga-se de passagem...
O pai da Helena? Todo dia quer saber dela, sem dúvida a ama muito e tenho certeza, se pudesse e eu quisesse estaria conosco. Mas a vida sempre sabe o que faz, e como faz. A última vez que estive no Peru, (sim Helena é 50% brasileira, 50% peruana) sonhei com um bebê no meu colo que me perguntava "está pronta para mim agora?" e eu respondia "agora estou". Era ela, que já estava pronta há muito tempo...
E hoje comemoramos seu um aninho entre família, amigos e dindos...Festa com tema de borboletas para lembrar que a vida precisa passar por longas e silenciosas metamorfoses, festa com teatro de bonecos (Cia Goliardos) para lembrar que ela sempre permeia nosso caminho...
Vida a vida, vida o amor, viva a minha linda Helena!!




quarta-feira, 9 de março de 2016

Eu gosto de ser mulher, mas...




Passado o "dia internacional da mulher" fiz algumas reflexões acerca da data e meu momento como mulher.
Eu gosto, gosto mesmo de ser mulher, mas estou cansada temporariamente de "ser" mulher. Cansada da liberdade adquirida cheia de cobranças, cansada das piadas machistas, cansada da violência seja ela inclusive verbal, cansada de carregar nas costas um fardo histórico que não é meu. Queria poder ser apenas mulher, simplesmente mulher... mas anda difícil, sobretudo na nossa sociedade que vive a era do excesso de informação e compartilha opinião de tudo sobre tudo, sem ao menos verificar o conteúdo. Apavorante! Meu cérebro com neurônios polivalentes não aguenta tanta agressão verborrágica.
Cleópatras, Carlotas Joaquina, Joanas D Arc, Maries Curies, Anas Bolena, Virgínias Wolff, Carmens Miranda, Anitas Garibaldi, Irmãs Dulce, Madres Tereza de Calcutá, Marilyns Monroe, Ediths Piaf, minha mãe, minhas avós, minhas colegas e tantas outras mulheres que admiro.
Não gosto do termo "guerreira", me sinto na pré-história com uma lança pronta a atacar com unhas e dentes o primeiro que atravessar meu caminho, também não gosto de flores, essa simbologia me desgasta. Mulher não é enigmática, não é difícil, não é complexa, mulher é em primeiro lugar uma fêmea e como tal, cheia de carinho, desejos e fome. Fome de amor, de vida, de abrigo, de apoio, de afeto, fome de silêncio. Gostamos de partilhar dele, mas não nos compreendem.
Realizamos diversas funções em questão de minutos, porque somos práticas e aprendemos, com aquela "tal independência" a nos virar desde sempre e tomar decisões rápidas em momentos difíceis. Sabemos lidar com a dor, com o desespero e com o abandono melhor que os "machos" e eles sabem disso, mesmo os hipócritas discursivos. 
Dar a luz, amamentar, engordar são apenas detalhes, quando você engole as lágrimas e sabe que precisa ser forte, quando já não sabe mais de onde tirar força. Quando olha-se no espelho e vê que seu corpo mudou, passou por transformações que você não teve como evitar, quando seus olhos às vezes inexpressivos possuem tanta história, quando cada ruga foi uma virada de página que o destino fez você alçar... Ser mulher é para quem escolhe vir ao mundo assim, de forma evoluída, é quem sabe que desde pequena vai enfrentar enormes desafios, é quem sabe que terá muitas vezes de engolir o grito e forçar um sorriso porque sabe dosar sua raiva.
Então homens, não me venham com florzinhas, abracinhos, lembrancinhas...honestamente não precisamos disso (aqui falo só por mim, porque há as mulheres que gostam e respeito!)precisamos que vocês sejam HOMENS, que assumam a sua parte, que assumam a responsabilidade pelas suas vidas, que assumam a essência de vocês e aprendam a compartilhar, a ajudar, a apoiar, a abraçar e calar a boca, a fazer amor sem pensar somente no bel prazer de vocês, que beijem mais na boca e encham nossa boca de amor e saliva, de desejo e ternura, que nos tomem nos braços não quando perdirmos, mas que nos surpreendam, que não discutam quando estivermos descontroladas, vai passar e vamos nos desculpar quando exagerarmos e sobretudo, quando formos mãe, levantem de madrugada com a gente, ajudem a organizar a casa, troquem fraldas, fiquem com o bebê para tomarmos um banho demoradamente, nos convidem para sair quando estiver horrorosas (vai nos incentivar a melhorar) e por favor, parem de nos cobrar! Parem de nos pedir para carregar o mundo nas costas, cresçam conosco, mutuamente!Ou carreguem o mundo ao nosso lado, vai ficar mais fácil com vocês, somos seres humanos, lembram?
Não precisamos de um dia só para nós, precisamos que nos respeitem todos os dias!
Eu gosto de ser mulher, mas... talvez ser homem torne algumas coisas mais fáceis às vezes. Mesmo assim, se ainda puder escolher, quero voltar quantas vezes for preciso como mulher (preferencialmente negra e cantora ok???)
Por hora, seguimos...como MULHER!
Lisiane Berti, 39 anos exercendo seu papel bravamente como mulher, mãe da Ísis e da Helena, atriz, diretora, dona de casa, dramaturga, professora, preparadora de elenco, motivadora empresarial, cozinheira casual, escorpiana, verdadeira, amiga, ativista cultural, adoradora de máscaras, polivalente, simples, louca e sempre de fé e com fé.