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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre a coragem de seguir o sonho!!


Quem em sã consciência, abriria um Estúdio de Pesquisa Teatral no atual momento conturbado que o país passa, onde ninguém sabe o dia de amanhã, investindo em pessoas e teatro, e sem praticamente muito dinheiro no bolso? "Euzinha aqui, pessoal!". A louca, a diferentona, "aquela do teatro"...sim, sim, sim...muitos adjetivos para uma única aposta: seguir meu sonho!!
Mas que sonho é esse que não podia esperar mais um pouco? Amigos, ele espera já fazem uns 10 anos, estava engavetado nos meus planos secretos, houve momentos que quase desisti dele, ou deixei ele de lado em função de outras prioridades. Mas quando você tem um propósito, quando você escuta seu coração e o alinha com sua alma, aí minha gente, a responsabilidade é diferente!
Faz um tempo escolhi não fazer teatro por fazer, ou para agradar, ou para ganhar dinheiro (cá para nós, nessa profissão não se ganha "rios de dinheiro", pelo menos não todo o tempo), sentia através das minhas aulas que precisava utilizar o teatro como uma ferramento de acesso para trabalhar "AS" pessoas e não apenas "COM" pessoas... Que tipo se ser humano queremos e podemos ser de verdade?
Onde exorcizar medos, angústias, trabalhar emoções  sem ser no divã do analista e psiquiatra? Obviamente que no palco, transmutando tudo isso em criatividade!
Primeiro é preciso dizer que no Estúdio de Pesquisa Teatral não temos como objetivo único formar artistas, mas antes, desenvolver pesquisas em Arte. O que queremos é nos envolver em processos de criação capazes de nos desafiar e alterar nossas possibilidades no mundo, “formando pessoas melhores” fortalecendo nossa identidade e resgatando nossa autoestima.
Cada ano, cada professor/pesquisador terá a liberdade de iniciar, continuar ou encerrar sua pesquisa na sua área de atuação, com o público alvo que lhe convém, dentro de um embasamento teórico, que será publicado na revista do estúdio anual, afinal toda pesquisa precisa chegar a um resultado (seja positivo ou negativo) pois a criação artística é a construção de um discurso que se constitui de ideias, materiais, linguagens e argumentos poéticos e a necessidade de expressá-las de algum modo. Cabe a quem cria descobrir, mesmo em meio a uma cidade caótica ou pequena, como Canela, uma potência que deflagre um processo de criação.
Queremos seres criadores e não apenas, consumidores.  Enfim, um espaço de diálogo, encontro e transformação!!

E como diria Beckett ...

“Você não pode se esconder; seu crescimento como artista não está separado de seu crescimento como ser humano: é tudo visível.”

Visita nossa página no face:
 https://www.facebook.com/estudiodepesquisateatral/?fref=ts





quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O primeiro rivotril a gente nunca esquece...


Saio cedo para uma hora marcada pela manhã, feliz cantando e dirigindo ao som da minha música preferida "Sittin'on The Dock of the Bay" (Otis Redding) que até Helena já quer cantar nos seus quase dois anos de vida; chego 15 minutos antes do previsto no local, achando que estava arrasando e quando aperto o interfone descubro que minha hora era a tarde. "Putz". Vou para o café ao lado e no caminho converso online com um amigo que decide me encontrar no café. Papo vem, papo vai, falamos de Arte, cordel, utopias, projetos... (tão bom falar com gente inteligente e que não usa o pronome pessoal "EU" em todas as suas frases). Ele sai, chega outra amiga, cantora! Falamos sobre as escolhas, intuições, dificuldades de falar o que fica engasgado. Ao lado um casal querido, amigo, vou até eles, abraço e cumprimento. Volto para casa quase meio dia. O planejado não aconteceu, mas o universo conspirou para outra coisa... Chego em casa e me deparo com a cartela de rivotril que ganhei (não vem ao acaso dizer de quem) pois comentava da minha absurda ansiedade...
Nunca fui fã destes remédios...e sim, tomei um numa noite, e não aconteceu nada. Acho que todo o café do meu corpo foi mais forte (graças a Deus!). Pensei se queria vegetar ou reagir? Se queria ficar inerte diariamente aceitando tudo " de boa" ou viver minha vida "mode on louca". Um ansiolítico, ficamos melhor para os outros e cada vez pior com nós mesmos..."JAMÉ"!!!
Botei a cartela fora! Toda ela e dei risada! Acham que me pegam né? Não! Acham que me rendo por tão pouco? Nunca! Acham mesmo que quero levar uma vida de "abostada" com olho parado, numa calma fingida apática ao meu entorno? Não sou dessas baby...não sou dessas... Eu me recupero e me regenero, como boa escorpiana que sou!
Rivotril é prescrito por psiquiatras a pacientes em crise de ansiedade – nos casos em que o sofrimento tenha causa bem definida. Mas tem sido usado pelos brasileiros como elixir contra as pressões banais do dia a dia: insônia, prazos, conflitos em relacionamentos. Um arqui-inimigo dos dilemas do mundo moderno.No Brasil, o Rivotril tem ainda outra vantagem importante. Repare: somos os maiores consumidores mundiais do remédio, mas estamos apenas na 51ª colocação na lista global de consumo de benzodiazepínicos. Ou seja: o mundo consome muitos benzo, nós consumimos muito Rivotril. Por quê? Por causa do preço. Uma caixa de Rivotril com 30 comprimidos (considerando a versão de 0,5 miligrama) custa em torno de R$ 8. O principal concorrente, o Frontal, da Pfizer, custa cerca de R$ 29. (Fonte Superinteressante).
Eu não quero comprar saúde em caixinhas, por isso trabalho com Arte e não, não sou contra pessoas que realmente precisam sob prescrição médica tomar esses remédios. Estou falando dos preguiçosos de plantão que apelam, por preguiça e cuidarem de si mesmos (tenho ótimos exemplos familiares.) É mais fácil se render a tarja preta do que se olhar no espelho, falar do que sente, mexer na "caixa preta", organizar emoções, abraçar, acolher, chorar, sorrir, sair de si mesmo mas também mergulhar num autoconhecimento profundo. O teatro me ensinou desde cedo a enfrentar isso, e muito do que sou devo a ele que salvou de grandes emboscadas, ou me tirou de situações difíceis...
Vivemos no mundo do caos, e o pior caos é o interno, com vestimos nossa "cara pastel" e saímos enganando o mundo, fingindo que somos super resolvidos, batendo metas, trabalhando no fim de semana para dar conta do que dissemos que podíamos fazer, abrimos mão da família e amigos e nos boicotamos...
Haja rivotril, prozac e a "puta que pariu" (hoje to rebelde!) para dar conta... até ritalina para criança, para segurar a onda anda rolando... Mas o que é isso? 
Não tem jeito, uma hora a maldita cabeça há que pousar em um travesseiro qualquer. E o cérebro imparável vai cobrar respostas. Mas se sequer temos perguntas bem resolvidas como elaborar saídas. Vemo-nos perdidos e não há nesse mundo um gps bom o suficiente para nos guiar na estrada rumo à morte. Sim, a morte está logo ali à espreita. Inexorável. O beco parece sem saída. E padecemos de pé. Padecemos quando despertamos. Estamos com tudo. Temos tudo. Acessamos tudo. No entanto, estamos completamente vazios no fim.
Insisto na Arte! A ARTE TRANSFORMA PESSOAS!!! Todos os dias! Sugiro uma aula de teatro bem dada, quero ver se o rivotril causa a mesma sensação... duvido! 
E acabo meu texto com uma breve frase de Guimarães Rosa que falava com meu amigo no café da manhã:

"Deus nos dá pessoas e coisas, 
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas 
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer"

Sinto muito vida, mas eu vou seguindo meu caminho, do meu jeitinho, às vezes devagarinho, às vezes atropelando o mundo, o importante é que estou sempre em movimento!!






sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Eu ainda não entreguei os pontos...ainda!



Um dia para o Natal! Uma angústia profunda... Nunca foi uma época que eu gostei, nem quando criança pois temia o Papai Noel, depois cresci e comicamente fui trabalhar com vários deles, todos os anos na época de Natal, teatralmente. Esse natal de 2016 tem um gosto de tristeza, não há como fechar os olhos e comer peru se empanturrando de espumante sem pensar nas atrocidades que o mundo tem passado. A guerra na Síria, o atual presidente do país e toda a corrupção abusiva vindo à tona, nosso Estado do Rio Grande do Sul quebrado com um governador que extinguiu diversas fundações importantes... tem um cheiro podre no ar...talvez o "peru" queimou.
Há os que conseguem fechar os olhos e seguir na sua redoma de vidro, achando que são impenetráveis, que nada vai lhes acontecer, afinal eles tem dinheiro e abusam da arrogância para humilhar os outros.
Hás o que continuam postando cada ação do seu dia nas redes sociais, fingindo ser o que não são, os "carentes" em busca de curtidas e papos fúteis. Há os que argumentam e brigam por tudo e na verdade não sabem nada, há os politizados, que sempre tem um discurso ensaiado para tudo, o ano mal termina e eles já se preocupam em "como  vai ser?", "mudou o partido", "quem vai assumir tal pasta".
Ando sem paciência para isso tudo e triste também por presenciar isso tudo. O que fazer? Entregar os pontos, tomar rivotril, tornar-me apática, entrar no sistema corrupto, mentir, bajular? Como olhar minha filha dormir tranquila e feliz e pensar em toda a Guerra da Síria e em quantas crianças que como ela perderam a vida, ou nos pais que perderam e perdem seus filhos assim, "do nada", porque o país estava dando certo, porque é um dos únicos que o petróleo ainda era deles, gerenciado por eles. O jogo do interesse faz isso! Seres humanos matando seres humanos! Bolsos cheios, carro do ano, plástica, jatinho particular, namoradas 50 anos mais jovens (nada contra falo especialmente dos políticos)... Pra mim e muitos outros é difícil ver isso e não ficar tocado, cansado, triste e sem ação.


Eu ainda faço Arte, a que eu acredito mas me pergunto...até quando vou conseguir fazer? Até quando minha arte poderá de fato fazer a diferença e não cair nas "políticas públicas" e no "tapinha nas costas"? Até quando vou seguir correndo, estudando, fazendo mil coisas pela arte que acredito valha a pena. Tudo parece escuro...tudo parece um pouco confuso. Porque se preocupar? Pra quem fazer a diferença? Anos de luta aqui no Sul foram por água abaixo com cortes e pacotes absurdos... nosso país em crise de valores total, violência crescendo, guerras e guerras eclodindo, catástrofes... é de tirar o fôlego! Parece que carregamos nas costas o peso do mundo, um mundo de trevas, de escuridão... parece um retorno a Idade Média...
Vida segue! Natal vem aí! Podemos fingir que nada está acontecendo e tirar selfies pomposas para garantir inveja alheia ou ficarmos em reflexão e oração. Sim amigos, rezar ainda é o que nos resta! Afinal só se pode juntar as mãos, quando estas estão vazias...















Eu desejo a todos um Natal reflexivo, de introspecção, que nos voltemos para dentro de nós e repensemos os nossos valores e crenças, lembremos do outro, o outro que pode ser meu vizinho, minha família, meu aluno, ou um desconhecido. Que não nos percamos de nós em primeiro lugar e saibamos estender a mão ao outro... acredito que de algum lugar do UNIVERSO alguém nos envia tolerância, luz, vida e amor para nossas almas. Feliz Natal, então...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quando o artista não atrapalha a si mesmo...


Segundo Rollo May, em seu livro "A Coragem de Criar", ao longo da história artistas e cientistas concordam que, em seus melhores momentos, sentem que algo fala através deles. Eles conseguiram, de alguma forma, não atrapalhar a si mesmos. Alguns dizem que Deus fala através deles. Outros afirmam, em estilo mais modesto, que a fim de não atrapalhar a si mesmos e evitar o lobo frontal do cérebro, vão dar um passeio na floresta ou tiram uma soneca. Eles têm de tirar a cabeça daquilo que estão tentando fazer, a fim de obter as conexões mais inspiradas. A mente está sempre alerta para emboscar o processo. As descobertas e os achados acontecem quando você consegue não atrapalhar a si mesmo.
Não podemos criar resultados, só podemos criar as condições para algo acontecer. Os resultados surgem por si só! Cada artista precisa de seu espaço dentro de sua criação para fazer o seu próprio trabalho. Ensaiar não é forçar as coisas acontecerem, é ouvir.

Mas há diretores e atores que não sabem ouvir, e acabam atrapalhando seu processo de criação e consequentemente a si mesmos... às vezes você só tem de fazer, e não pedir opiniões de como fazer. Siga seu impulso, siga sua intuição, acredite na sua primeira ideia, aquela que você insiste em trocar e dizer que não está boa...

A parte do cérebro que pode facilmente desviá-lo de sua rota é conhecida como lobo frontal. Ela produz aquele zumbido permanente em sua cabeça que quer censurá-lo e está a espreita pronto para atacar qualquer movimento que você faça. Para encontrar um fluxo criativo, você tem que ocupar o lobo frontal com algum outro trabalho para que ele não se coloque no seu caminho. Só então, uma vez contornado o obstáculo do zumbido penetrante, é que você pode começar a seguir uma pista estética ou um capricho criativo. Somente depois disso, você pode começar a confiar em seus instintos. Uma vez que você estiver livre para ser espontâneo, a intuição poderá ser seu guia.

Os artistas insistem em se preocupar demais com a crítica alheia, com o crivo do "fulano de tal" e esquecem de olhar para dentro de si, de buscarem respostas na sua inspiração. Atrapalham-se! Perdem tempo com espetáculos desnecessários que não agregam em nada e enchem momentaneamente o bolso de dinheiro para um "extra teatral" sem valor estético e social algum.

O artista que não se atrapalha, sabe que a arte começa na luta pelo equilíbrio. O desequilíbrio produz uma dificuldade que é mais atraente e frutífera. De repente você se encontra fora do seu elemento e fora de controle É aí que a aventura começa. Quando se aceita de bom grado o desiquilíbrio, você sai exatamente da sua zona de conforto e se sente pequeno e inadequado diante da tarefa que tem pela frente. Mas os resultados desse empenho são muito mais satisfatórios.

Minha pesquisa "O Ator e Sua Verdade" vem dentro desta perspectiva de treinamento e descoberta do ator, primeiro ele precisa se auto conhecer e organizar suas emoções e depois se expor. S ele tiver humildade e disponibilidade suficiente para isso, e não atrapalhar o processo ele sairá da sua zona de conforto e é aí, que a Arte/vida começa. O desconforto provoca interesse, busca, pesquisa, medo, a curiosidade. Ser ator é muito mais que "vestir" um personagem e dar intenção a este ou aquele texto, para criar um personagem antes, você precisa mergulhar dentro de si, as respostas estarão todas ali, dentro de você, das suas experiências e vivências e também carências e insuficiências... é como fazer uma maquete e alguém acidentalmente bater no seu projeto, isso permite olhar os elementos de uma forma inteiramente nova.

As coisas sempre saem erradas. É comum acontecer algo que você não planejou. Sigmund Freud sugeriu que não existe acidente. Será o acidente um sinal? Quando algo dá errado nós recuamos e queremos reavaliar. Mas será que não poderíamos inverter esse impulso? Aceitar positivamente a energia desse acontecimento inesperado? Ir a fundo e não esquivar-se. Mas se você é atrapalhado com suas ideias e emoções o seu primeiro ímpeto será fugir, desistir ou se fechar, esperando um "milagre" que nunca virá.  Não podemos controlar demais nem sermos caóticos demais! Esteja alerta, fique pronto para o inesperado, não se esconda, pare um pouco a lição de casa que algo criativo e acontecerá. E com toda certeza será adequadamente desconfortável!!

Fonte: "A Preparação do Diretor" de Anne Bogart



sábado, 3 de dezembro de 2016

Era uma vez um coração de menina em corpo de mulher


Geralmente quando durmo coloco as duas mãos sobre meu coração. Sinto! Escuto e até converso com ele. Penso em quanto desgaste já teve ao longo desses 40 anos, em todas as guerras que travei em nome dele, todos os trabalhos que fiz onde ele sempre falou mais alto, todos as perdas e dores que tive por preenchê-lo sempre acreditando que seria possível! Eu sempre acredito! 
Aproximando-se do Natal, me vem a imagem dele como um "chester" (debochada sim!), todo remendado, mas cheio, cheio de coisas boas! Cada costura uma história, cada fio transpassado um caminho que cruzei, um homem que amei, um texto que criei, um personagem que atuei, as filhas lindas e iluminadas que me presentei! Meu coração é jovem, cheio de vida e de muitas histórias para contar. (Graças a Deus!).  Minha filha diz que eu pareço uma adolescente às vezes, quando me empolgo com as coisas ou com as pessoas. Uma intensidade absurda! Mas as pessoas não entendem e nem gostam disso. (Sinceramente, problema delas, cansei de tentar explicar...)
Eu sempre verbalizo o que sinto, para quem acho que valha a pena! Procuro me fazer entender da forma mais clara possível, quando gosto e desgosto.  Não sou água morna! Não sou o que querem que eu seja, sou eu, sempre eu, autenticamente e loucamente eu! Acho que a vida é uma pluma para perdermos tempo com esperas prolongadas, com gente enrolada, gente que não trabalha seus traumas e dores, gente abusada, gente que brinca com sentimentos alheios achando que isso nunca vai voltar, gente que ama de forma egoísta, ou seja, tudo tem que ser como e quando ela quer...o outro?O outro que espere ou se dane! Ceder faz parte mas precisa haver equilíbrio...com o passar do tempo, analisando minhas relações sociais, familiares, profissionais e amorosas, percebi que durante muito tempo eu sempre cedi, sempre dei meu melhor mesmo quando o outro não tinha nada a me dar. Eu tinha (e tenho) tanto amor dentro de mim, que eu compartilhava em dose dupla, no início isso bastava, meu coração alertava e lá na frente ficamos eu e ele, batendo sofrido. Chorávamos sozinhos num travesseiro qualquer e eu questionava: O que eu fiz de errado? Por quê? De novo isso se repetindo?
Anos de histórias e muitas lágrimas depois, começo a entender a linguagem do meu coração, continuo amando muito , mas não deixo mais abusarem do meu amor. Me conectei comigo, e descobri que meu primeiro amor serei sempre eu, depois minhas filhas, meu teatro, minha vidinha louca e corrida que tanto amo... Aprendi a dizer não! E que delícia dizer "não" sem culpa! Aprendi que não posso esperar das pessoas o que não podem me dar, então sutilmente me afasto, deixo elas no tempo delas, com suas convicções e confusões, não compartilho mais amor com quem não se deixa amar. Não perco mais meu tempo!
E assim são os amores, os trabalhos e os amigos...só estão realmente perto de mim os que assim como eu, amam de verdade sem esperar nada em troca. Não abro mais as portas da alma para todos, verbalizo muito, mas minha essência é preservada. Aprendi a me proteger, a me cuidar melhor, a evitar noites sofridas por gente desnecessária. Respiro fundo, ainda estou longe de onde quero chegar mas já me movimentei muito de onde estava.
Quero presença, colo, carinho, palavras legais, (flores, não!). Quero gente que assim como eu se esforça para caramba para que as coisas aconteçam sem pensar só em dinheiro. Me emociono com coisas tão bobas às vezes, fico feliz com reconhecimentos simples, não quero capa de jornal, não quero cargo político, não quero fama! Quero alma, quero sentido para minha vida e minhas escolhas, sejam elas quais forem.
Não tenho medo de ser feliz, nem de me expor, mas já não o faço pra chamar atenção. Só para quem vale a pena. Me recolho quando ignorada, fico quieta quando criticada (se tiver argumento), repenso, recomeço quantas vezes forem necessárias, luto, esbravejo, passo horas em claro se digo que vou entregar tal material em tal hora, palavra para mim é lei!  E se der minha palavra, pode ter certeza que vou cumprir.
Portanto, se você não pode me dar sua verdade, ou se finge que é de verdade, nem se aproxime muito, porque eu não posso te ajudar e não quero ser cruel com meu coração. Se fizer isso de novo, ele me coloca de castigo. Estamos muito bem eu e ele, há muito tempo, temos nos recuperado bravamente de tudo que passamos juntos, e olha que não foi pouca coisa. Um dia te conto dando risadas e tomando um bom café, porque tudo acaba em Arte! Tudo vira palco! Tudo vira história para contar...
E se minhas histórias e minha forma de ser puder auxiliar pessoas que assim como eu, sentem as batidas do seu coração nesse mundo doente e ingrato, BINGO! Te quero comigo! Bem do meu lado! 
Porque escrevi isso? Achei um rascunho de um texto de 2014 que não acabei, a chuva de hoje me inspirou nesse texto simples, que não é desabafo nem recadinho para ninguém, até porque estou sozinha, tranquila e feliz (pasmem!!).
Mais café, beijos na boca e coração por favor...o resto a gente esquece um pouquinho!
O mundo tá chato, com muita gente chata falando de coisas chatas...falta autoconfiança! Falta coragem de assumir a delicia de ser o que se é!


domingo, 27 de novembro de 2016

Um História de Canela


Existem trabalhos que te procuram e não  você que vai atrás deles! Em julho de 2016 veio um convite de criar algo para o centenário do Grande Hotel Canela, hotel este que está há 100 anos sendo administrado pela mesma família (Os Corrêa!) com excelência em atendimento e hospitalidade. Pensando no que fazer, não via um palco com atores, mas sim aproveitar o cenário do próprio hotel, o antigo casarão e oferecer ao público uma experiência (teatro tem sido assim pra mim). A plateia reduzida tomaria um café da tarde com os personagens da história, Danton Corrêa e Anita Franzen Corrêa. Passou alguns meses e veio a confirmação de que iríamos realizar a proposta, não tão grande como pensávamos no projeto inicial, mas com a mesma veracidade e simplicidade do formato da ideia inicial.
Então veio o mergulho na história da cidade, da família Corrêa, do empreendedor João Corrêa que não é um mero busto na Praça da cidade, mas um homem que em menos de 20 anos trouxe progresso e construiu uma cidade do nada, em épocas que não existia eletricidade, telefone, e que a palavra selava contratos. Depois o estudo dos filhos e de outro jovem garboso e batalhador Danton Corrêa, sempre preocupado com a cidade, em ajudar pessoas e fazer o melhor e sua amada esposa Anita, que tocava violino e topou a loucura de não só casar mas tocar com seu amor o hotel dos Corrêa. 
Entrevistamos pessoas, conversamos, mexemos em arquivos, um mergulho na época, na família e no próprio hotel. Para mim um presente! Sempre verbalizei que acredito muito na minha cidade e no potencial que ela tem. Nas pessoas que por aqui passaram e ainda passam, marcando sua passagem com história.
Canela é lugar para sonhar, para turista morar, Canela é hortênsia! O centenário do hotel nos faz refletir um pouco sobre o nosso papel enquanto cidadãos conscientes e claro, a mim, enquanto artista... que Canela queremos deixar aos nosso filhos? Os Corrêa viram possibilidades, na verdade, um mato de possibilidades, pois foi assim que conheceram Canela. Incrível que homens de cabeça tão geniais e abertas, não tenham o devido valor que deveriam por tudo que fizeram na história da minha cidade. Me pergunto: Quantos sabem quem foi João Corrêa? Maria Luiza? Danton Corrêa? Borges de Medeiros? Será que só nas aulas de história basta "pincelar" os conteúdos? De novo não nos apropriamos do que é nosso! Um povo que não conhece suas raízes, não vai a lugar algum...
Parece que Canela está voltando ao embrião de suas origens: MATO! Um pouco jogada aqui, um pouco abandonada ali, um pouco comparada lá! E isso não vem de agora... Nos falta a visão dos que por aqui chegaram e fizeram deste lugar uma terra melhor para se viver e sonhar!
Estreamos dia 23 nosso espetáculo, onde a plateia é recepcionada por um ator e um violinista, conduzida ao antigo chalé de 1930 que hoje é museu (sabiam que tem museu no Grande Hotel? Pois é, tem!) onde Danton Corrêa surpreende a plateia com seu porte e sua forma simples de bem receber e depois, aos sons da sineta da Dona Anita (como era antigamente) são chamados para um delicioso café, na parte do casarão onde era a cozinha da família, onde o casal conta um pouco da vida que levam em 1938, no auge das festas e bailes no hotel, onde o verão era a temporada mais forte e o inverno praticamente o hotel nem abria. Café, bolos, o famoso pão de cinco grãos da Anita, o saboroso apfelstrudel do Castelinho (o melhor da região), e história.
Café, teatro e história!
Quer combinação melhor?
Quem ainda não assistiu pode se programar para os dias : 30/11, 03,07,10 e 14/12 às 18h30min. O ingresso para tudo isso é apenas R$ 45,00 e pode ser adquirido na recepção do hotel.
O mais interessante é que a cada apresentação aprendemos e nos emocionamos mais com a própria família (netos, bisnetos) que deram seus relatos emocionados, com os funcionários mais antigos do hotel que nos dão dicas de como eram os protagonistas da nossa história, dos amigos que vão assistir e choram logo no início porque conviveram com estas pessoas.
Tudo simples, mas rico em conteúdo!
No elenco: Gustavo Waz (Arthur), Emiliano Marzano (Danton com uma incrível semelhança física) e Paula Lovatto (Anita, igualzinha no porte e na expressividade) com a participação especial de Jardel (violinista). Texto e direção meus, com auxílio de muita gente!
Gratidão por esse trabalho ter me "procurado", acho que os trabalhos acabam tendo a "cara" de quem os faz, e não vejo este em outras mãos (sem pretensão!). Porque eu gosto de trabalhar dessa forma!
Convido a todos que prestigiem, vale a pena no meio dessa loucura natalina, tirar um tempinho e viajar com a gente!






















sábado, 24 de setembro de 2016

O amor que moveu Mariana em Cartas de Além Mar

“Cartas Portuguesas", autoria atribuída à freira Mariana Alcoforado (1640-1723) e destinadas ao Cavalheiro De Chamilly, oficial do exército francês, que serviu em terras lusas, são um dos mais ardentes escritos de que se tem notícia sobre a solidão e agonia amorosa, o retrato de um romance mal-aventurado que atravessou gerações.

Adaptado e interpretado por Lisiane Berti , “Cartas de Além Mar” nos remete a uma paixão devastadora, uma entrega sem exigências a um amor desesperado cheio de solidão e ansiedade, onde as dores da ausência vão se transformando em inúmeras cartas como uma forma de aliviar a dor.  Apenas uma mulher, vivendo distâncias absurdas de si mesma...
Mariana Alcoforado nasceu em Beja, Portugal, exatamente na Província do Baixo Alentejo, movimentado centro militar no tempo das Guerras de Restauração que Portugal empreendeu contra a Espanha(1640/1668).
Era filha de Francisco Alcoforado e Leonor Alcoforado. A data e o mês de nascimento de Mariana é desconhecido, sabe-se, entretanto, que o ano é o de 1640. Na época de seu nascimento a família já tinha quatro filhos: Baltazar, Miguel, Francisco e Anna Maria. A 22 de abril de 1640 Mariana é batizada na Igreja de Santa Maria da Feira, e teve como padrinho Dom Francisco da Gama, descendente de Vasco da Gama. Ao completar 11 anos de idade, Mariana foi levada para o Real Mosteiro de Nossa Senhora
da Conceição, na sua cidade natal. Após cinco anos de vida dedicados, integralmente, aos estudos, orações e leituras, principalmente, a leitura da Bíblia, Mariana declara, mesmo sem vocação, sua fé religiosa. Dada a sua forte inclinação para a escrita, Mariana recebeu
o importante cargo de escrivã das Quarenta Horas, registrando os fatos mais importantes
do Convento. Em 1664, chegaram a Portugal as tropas francesas que foram em auxílio de Portugal contra os espanhóis. O capitão da Cavalaria chamava-se Noel Bouton de Chamilly (Conde de Saint – Léger). Integravam o exército português os irmãos de Mariana, Baltazar e Miguel Alcoforado e ainda o seu cunhado Rodrigo Rui de Melo. Mariana e Chamilly, se conheceram por intermédio dos irmãos e cunhado dela, em uma das visitas que regularmente faziam ao Convento. A partir da apresentação dos dois, surge uma paixão avassaladora, que posteriormente se transformaria em sofrimento amoroso. O dilema sentimental de Mariana é resumido nas cinco Cartas Portuguesas.
Ciúme, mágoa, ódio, desespero e decepção são sentimentos citados nominalmente nas cartas de Mariana, isto denota que a religiosa estava apaixonada, já que o amor não produz esses tipos de sentimentos. Os trechos a seguir referendam essa afirmação “(Não há alívio para as minhas mágoas e a lembrança da aventura que gozei enche-me de desespero) ,(Mas antes de te empenhares numa grande paixão lembra-te do meu sofrer desmedido),(de todos os meus desordenados impulsos),,(dos meus anseios e ciúmes), (Mas eu tenho sido constantemente perseguida por uma enorme decepção, pelo ódio e pelo desgosto, por
todas as coisas), (Tenho essa espécie de ciúme de minha paixão por você)”. 
Foi um prazer conhecer o amor e vida de Mariana Alcoforado e poder apresentá-las em "Cartas de Além Mar" que estreiou em 2013 e continua em processo de descobertas...
Não assistiu ainda?
Neste domingo às 18h no Estúdio dos Bonecos (Rua Borges de Medeiros, 75) você pode conferir esse amor profundo e toda a dor da espera de Mariana.
Partindo do meu trabalho de pesquisa pessoal “O Ator e Sua Verdade” , onde o desconforto é um parceiro do ato criativo e  a interpretação distancia-se do “representar” e aproxima-se do “apresentar” transformando a verdade emocional e física do ator em concepção cênica, decidi arriscar-me, expor-me verdadeiramente, afinal quando se busca autenticidade não se pode esperar encontrar segurança e serenidade, você luta contra algo que está fora do seu alcance, se vê envolvido naquilo que ainda não domina. O desconforto é um mestre! A sensação de desconforto é um bom sinal porque significa que você está entrando em contato com o momento de maneira plena, aberto a novos sentimentos que esse momento vai gerar. Em “Cartas de Além Mar” , eu enquanto atriz, me confundo com Mariana Alcoforado, somos mulheres, já amamos intensamente alguém que está distante,  nos entregamos de corpo e alma a uma paixão avassaladora, nos desequilibramos e escrevemos muito, desde sempre, somos solidão presas em uma garrafa lançada ao mar. O nosso mundo é um equador de escritos. 
Sergio Azevedo Fotos