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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quando o artista não atrapalha a si mesmo...


Segundo Rollo May, em seu livro "A Coragem de Criar", ao longo da história artistas e cientistas concordam que, em seus melhores momentos, sentem que algo fala através deles. Eles conseguiram, de alguma forma, não atrapalhar a si mesmos. Alguns dizem que Deus fala através deles. Outros afirmam, em estilo mais modesto, que a fim de não atrapalhar a si mesmos e evitar o lobo frontal do cérebro, vão dar um passeio na floresta ou tiram uma soneca. Eles têm de tirar a cabeça daquilo que estão tentando fazer, a fim de obter as conexões mais inspiradas. A mente está sempre alerta para emboscar o processo. As descobertas e os achados acontecem quando você consegue não atrapalhar a si mesmo.
Não podemos criar resultados, só podemos criar as condições para algo acontecer. Os resultados surgem por si só! Cada artista precisa de seu espaço dentro de sua criação para fazer o seu próprio trabalho. Ensaiar não é forçar as coisas acontecerem, é ouvir.

Mas há diretores e atores que não sabem ouvir, e acabam atrapalhando seu processo de criação e consequentemente a si mesmos... às vezes você só tem de fazer, e não pedir opiniões de como fazer. Siga seu impulso, siga sua intuição, acredite na sua primeira ideia, aquela que você insiste em trocar e dizer que não está boa...

A parte do cérebro que pode facilmente desviá-lo de sua rota é conhecida como lobo frontal. Ela produz aquele zumbido permanente em sua cabeça que quer censurá-lo e está a espreita pronto para atacar qualquer movimento que você faça. Para encontrar um fluxo criativo, você tem que ocupar o lobo frontal com algum outro trabalho para que ele não se coloque no seu caminho. Só então, uma vez contornado o obstáculo do zumbido penetrante, é que você pode começar a seguir uma pista estética ou um capricho criativo. Somente depois disso, você pode começar a confiar em seus instintos. Uma vez que você estiver livre para ser espontâneo, a intuição poderá ser seu guia.

Os artistas insistem em se preocupar demais com a crítica alheia, com o crivo do "fulano de tal" e esquecem de olhar para dentro de si, de buscarem respostas na sua inspiração. Atrapalham-se! Perdem tempo com espetáculos desnecessários que não agregam em nada e enchem momentaneamente o bolso de dinheiro para um "extra teatral" sem valor estético e social algum.

O artista que não se atrapalha, sabe que a arte começa na luta pelo equilíbrio. O desequilíbrio produz uma dificuldade que é mais atraente e frutífera. De repente você se encontra fora do seu elemento e fora de controle É aí que a aventura começa. Quando se aceita de bom grado o desiquilíbrio, você sai exatamente da sua zona de conforto e se sente pequeno e inadequado diante da tarefa que tem pela frente. Mas os resultados desse empenho são muito mais satisfatórios.

Minha pesquisa "O Ator e Sua Verdade" vem dentro desta perspectiva de treinamento e descoberta do ator, primeiro ele precisa se auto conhecer e organizar suas emoções e depois se expor. S ele tiver humildade e disponibilidade suficiente para isso, e não atrapalhar o processo ele sairá da sua zona de conforto e é aí, que a Arte/vida começa. O desconforto provoca interesse, busca, pesquisa, medo, a curiosidade. Ser ator é muito mais que "vestir" um personagem e dar intenção a este ou aquele texto, para criar um personagem antes, você precisa mergulhar dentro de si, as respostas estarão todas ali, dentro de você, das suas experiências e vivências e também carências e insuficiências... é como fazer uma maquete e alguém acidentalmente bater no seu projeto, isso permite olhar os elementos de uma forma inteiramente nova.

As coisas sempre saem erradas. É comum acontecer algo que você não planejou. Sigmund Freud sugeriu que não existe acidente. Será o acidente um sinal? Quando algo dá errado nós recuamos e queremos reavaliar. Mas será que não poderíamos inverter esse impulso? Aceitar positivamente a energia desse acontecimento inesperado? Ir a fundo e não esquivar-se. Mas se você é atrapalhado com suas ideias e emoções o seu primeiro ímpeto será fugir, desistir ou se fechar, esperando um "milagre" que nunca virá.  Não podemos controlar demais nem sermos caóticos demais! Esteja alerta, fique pronto para o inesperado, não se esconda, pare um pouco a lição de casa que algo criativo e acontecerá. E com toda certeza será adequadamente desconfortável!!

Fonte: "A Preparação do Diretor" de Anne Bogart



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